Abandono e descaso

Posted on 29/05/2007 por

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por Cristiana Jordão Nery

O trem do Subúrbio de Salvador causou progresso nas ruas que o margeavam. Com o passar do tempo muita coisa mudou, a Avenida Suburbana foi construída, as casas foram modificadas, mas em duas destas ruas uma mudança básica e necessária, que é a colocação de asfalto, nunca chegou.

“Essas ruas têm mais de 100 anos de história, mas nunca viram nem um pó de asfalto”, esta foi a maneira que, Yolete Pires, 56 anos, proprietária de uma casa em Periperi desde que nasceu, encontrou para resumir o problema das ruas Pedro Gordilho e Agenor de Freitas, localizadas respectivamente nos bairros de Periperi e Praia Grande entre a linha do trem e a Av. Suburbana. O problema é grave e visível. Basta ver os buracos, o barro e a poeira que atormentam os moradores. “Estas ruas no verão é só poeira e no inverno alaga tudo. Aqui parece que moram cachorros. Tudo quanto é rua em Periperi é, ou já foi, asfaltada.”, reclamou Andrelina dos Santos, 59 anos moradora da rua Agenor de Freitas há dez anos.

Os moradores já se mobilizaram várias vezes, mas nada adiantou. “Esse negócio destas ruas não tem jeito”, comentou Nelson Drummond, 84 anos que mora em Periperi há 45 anos, e continuou com uma grave denúncia: “Dizem eles mesmo (Prefeitura) que já consta nos arquivos que aqui já foi asfaltado, mas as obras nunca começaram. Saem e entram políticos e nada resolve”.

Esta denúncia é feita pela maioria dos moradores, segundo eles quando procuraram a prefeitura para entregar um abaixo-assinado solicitando o asfalto foram informados de que estas ruas já são consideradas asfaltadas. Esta situação causa revolta entre todos. “Nunca vai dá em nada, isto por que o político ladrão botou o dinheiro no bolso”, disse Andrelina, indignada (xingando muito).

O período citado não corresponde à administração do prefeito João Henrique, mas, segundo Yolete, já foi feita uma solicitação para a prefeitura vigente: “No ano passado preparei um documento com as assinaturas e com fotos das ruas. Inclusive antes da última eleição a prefeitura colocou uma placa informando a chegada do asfalto, mas depois retirou, a sorte foi que tirei uma foto dela e juntei com o documento”.

Ainda segundo Yolete um engenheiro da prefeitura esteve nestas ruas e informou que “o asfalto podia chegar, mas que o orçamento não cobria uma boa drenagem para a água”. A Sumac (Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade), Setin(Secretaria Municipal dos Transportes e Infra-estrutura) e a Surcap (Superintendência de Urbanização da Capital) foram procuradas para falar sobre este assunto. A Sumac informou que esta questão não é de sua responsabilidade, pois o seu trabalho é de recuperação e manutenção de ruas que já foram asfaltadas, e este não é o caso. Já a Setin e a Surcap foram consultadas várias vezes, mas nenhuma declaração foi conseguida.

Lixo
A coleta de lixo é costuma ser um problema para os bairros de classe baixa. Mas segundo os moradores das ruas, Pedro Gordilho e Agenor de Freitas a prefeitura faz a parte dela, e todos os dias às 8h o caminhão retira o lixo. Uma outra opção é colocar os resíduos na Av. Suburbana onde a coleta é realizada várias vezes ao dia.

O transtorno não é culpa da prefeitura, de acordo com a moradora de Praia Grande, Carmen da Paixão, 61 anos “o problema é que algumas pessoas ao invés de colocarem o lixo no local correto, jogam na linha do trem”. Este fato causa uma séria preocupação, pois quando chove o lixo acumulado entope valas, trazendo odor e risco para a saúde das pessoas.

Segundo Yolete a única coisa que incomoda, além do lixo na linha do trem, é a presença de uma caixa grande da prefeitura que fica no início da rua Pedro Gordilho: “Já pedi a prefeitura para tirar essa caixa, pois ela só atrai bichos. Além do povo que bota ao redor muito entulho, deixando uma aparência horrível”.

Segurança
“Aqui a segurança depende dos ‘donos da lei’ que andam armados assaltando ou correndo para a praia fugindo da polícia”, reclamou uma das moradoras da região que prefere não ser identificada. Segundo informações o índice de marginalidade é muito alto e o policiamento é insuficiente.

Apesar de todos saberem que a violência não está presente apenas no subúrbio há vários casos de pessoas que se mudam ou que mandam seus filhos morarem em outros lugares para fugirem da falta de segurança. “Mandei minha filha morar nos Barris, pois ela estudava a noite e, mesmo meu marido indo pegá-la no ponto de ônibus eu ficava preocupada. Aqui eu vivo assim, dentro das grades”, falou Andrelina.

A solução encontrada pelos moradores foi recorrer à pessoas que prestam serviço de segurança. O pagamento desses “seguranças particulares” é feito através da arrecadação de R$10 cobrados a cada pessoa interessada. Estes trabalhadores fiscalizam a região e utilizam um apito para intimidar os bandidos.

Além de registros de assaltos e uso de drogas existe uma denúncia de que algumas pessoas quebram o muro que rodeia o trem para roubar o ferro de dentro dele e revendê-lo. “Quando a separação era feita de cerca roubaram toda, agora quebram o muro para tirar o ferro”, falou um dos moradores que também prefere não ser identificado.

A presença destes muros, assim como a de árvores e a iluminação precária facilita a atuação dos criminosos. A grande maioria das casas da região é gradeada e é costume dos moradores avisarem aos visitantes para não andarem com relógios ou aparelhos celulares para não chamar atenção dos assaltantes.

É lamentável que estas ruas que ainda possibilitam às crianças uma infância saudável. Que ainda permitem que seus moradores sentem-se no passeio para conversarem. Que possuem um clima agradável e receptivo “que parece de interior” sofram com o abandono e descaso por parte das autoridades e de uma parcela da população do local.

É inevitável não perceber nos moradores mais antigos da região uma saudade de um tempo onde tudo era mais tranqüilo, mais seguro e bonito. A imagem das ruas que nunca tiveram asfalto, mas que já foram muito boas de viver fica na memória e nas histórias contadas por todos.

(maio de 2007)

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