Centro Sofia – nova opção de vida para o Subúrbio

Posted on 29/05/2007 por

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por Ana Tereza Santos

A minha jornada começa na estação de trem da calçada. Chego por volta das 10h da manhã de uma terça-feira de sol. Uma pequena fila para comprar os bilhetes está formada, me dirijo ao final. Após alguns minutos, já posso contemplar o pequeno bilhete que custou R$0,50. O meu destino é o bairro de Escada Menor. Mais precisamente o Centro de Estudos Sofia.

Caminho um pouco desconfiada para a roleta do embarque. Uma pequena confusão está formada, não dou importância e entro em um vagão que já estava lotado. Nenhum lugar para sentar. Posiciono-me em pé mesmo. Logo após, outro burburinho faz com que todos saiam do trem. Minutos depois todos retornam apressados tentando resgatar seu antigo lugar. Pergunto para uma mulher, de aparentemente 30 anos que estava ao meu lado, o que estava acontecendo. Num tom de chateação ela responde que “tão testando o trem novo, pra vê se dá jeito de passar no buraco”. E com esse teste inesperado pelos passageiros, vem também um atraso de 40 minutos.

Às 11h o trem apita avisando que vai sair. Esqueci de falar que com a confusão de entra e sai, encontrei um lugar para sentar, nada muito confortável, mas já era alguma coisa. Sentei-me ao lado de uma senhora bem idosa que pela quantidade de sacolas levava sua “feira do mês” para casa. Do outro lado estava aquela mesma mulher de uns 30 anos.

Desci do trem na 6ª estação. Perguntei ao bilheteiro Florivaldo Santos, 46 anos, onde ficava o local. Ele me levou pelo braço e, alguns passos após, apontou um portão e disse: “É naquele lugar ali que tem aula de internet”. O portão indicado estava aberto e o lugar parecia não fazer parte da paisagem do bairro humilde de casas simples. Era uma espécie de sítio, com muitas árvores, um jardim muito bem cuidado e um casarão com as portas abertas. Senti-me acolhida ao observar o local.

Deu para ver um grupo de jovens reunidos debatendo. Eles usavam camisas iguais, uma espécie de uniforme. Adentrei mais no local e avistei a biblioteca Paulo Freire. Dentro da biblioteca alguns jovens liam concentrados. Uma grande quantidade de livros estava exposta. Segundo a bibliotecária Simone Santana, cerca de 12 mil livros estão a disposição no centro e esse acervo é destinado à comunidade do subúrbio.

Recentemente o Centro Sofia recebeu uma doação de uma biblioteca que se desfez em Monte Gordo (Camaçari), cerca de 6 mil livros, o que dobrou o antigo acervo. Agora estão disponíveis livros de literatura, direito, contabilidade, filosofia, história e muitos outros, além das assinaturas de revistas e jornais como Caros Amigos, Info Exame, Época, Veja, Carta Capital, Super Interessante, Jornal A Tarde e Tribuna da Bahia.

Por enquanto esses livros e periódicos só estão disponíveis na biblioteca, pois só é possível emprestar livros de literatura, já que dificilmente encontram-se exemplares duplicados. A biblioteca Paulo Freire recebe cerca de 70 visitantes por dia, de diversas partes do subúrbio. Onze bairros são atendidos pela biblioteca. A maior parte dos freqüentadores é de Escada, Itacaranha e Praia Grande, o segundo grupo que também utiliza é de Ilha amarela, Rio Sena e Alto da Teresinha, e um grupo menos assíduo é de Paripe, Alto de Coutos, Periperi, Plataforma e Lobato.


História

O Centro de Estudos Sofia é uma ONG que foi inaugurado em 2 de maio de 2001, com o objetivo de estimular a escolaridade, e combater a evasão escolar. Um dos idealizadores do projeto, José Edenilson dos Anjos, afirma que o centro nasceu com o objetivo de elevar o nível escolar no subúrbio, estimular o crescimento intelectual e o ponto de vista cultural, pois “nunca se prioriza a educação porque a fome fala mais alto”, afirma o teólogo e coordenador do Centro.O centro se chama Sofia por causa da origem grega do nome que é amante da sabedoria, um nome escolhido para atrair as pessoas da comunidade. “É preciso abrir o leque de opções para o jovem do subúrbio, para que ele tenha capacidade de competir no mercado de trabalho”, completa Edenilson. Além disso, o projeto contribui para a não criminalização dos jovens, que encontram nos projetos do Centro Sofia uma oportunidade de crescer.

A estrutura física do local conta com cinco salas, um anfiteatro, uma sala de informática, um laboratório de manutenção de micros, a biblioteca Paulo Freire e um campinho (temporariamente desativado). Atualmente a ONG tem apenas três funcionários contratados, o coordenador, a bibliotecária e o caseiro da chácara e conta com o apoio de alguns voluntários.Em 2006, a biblioteca Paulo Freire foi finalista do Projeto Viva Leitura, concorrendo com 3.031 projetos de bibliotecas em todo o Brasil. O projeto foi realizado pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação. A biblioteca do Centro Sofia foi classificada entre as cinco, na categoria das melhores bibliotecas públicas, privadas e comunitárias de todo o Brasil. E foi a única indicada na Bahia.


Projetos

O centro já contou com o apoio financeiro de ONGS católicas, e agora sobrevive de doações e do incentivo do governo Lula para o programa Primeiro Emprego, no qual o Sofia apresentou dois projetos, que foram aprovados em parceria com a ONG Consórcio da Juventude, de capacitação para jovens do subúrbio, o “Com.domínio Digital”.

O projeto consiste em preparar jovens entre 16 e 24 anos, para o mercado de trabalho. O Com.domínio Digital tem carga horária total de 400 horas mais 100 horas de serviço social voluntário. Cada jovem cumpre 25 horas de atividades mensais e recebe uma bolsa auxílio de R$180 por mês, paga diretamente pelo Ministério do Trabalho através de um cartão de saque bancário. Além da bolsa auxílio, os alunos também recebem material escolar utilizado, transporte e lanche.

O curso se divide em 180h de oficinas para capacitação profissional (paisagismo, manutenção de micros e auxiliar de escritório), 100h para ADE (apoio ao desenvolvimento escolar, aulas de português e matemática), 40h de inclusão digital, 40h de equidade (raça, gênero) e 40h de formação para o “mundo do trabalho” (elaboração de currículo, como se apresentar, como falar).
O Centro Sofia também realiza outros projetos, como “A Hora do Conto”, realizado na última sexta-feira do mês para crianças de 5 a 10 anos, e conta também com dramatização, desenhos e pintura. Outro projeto é o “Cine-Clube”, que consiste em passar os filmes listados para o vestibular da UFBA e UNEB. Além desses projetos regulares, acontecem esporadicamente palestras e debates, apresentações teatrais e shows de bandas locais.Contato:

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