Rildo do Amor Divino

Posted on 29/05/2007 por

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por Mateus Borges

Capoeira, para o dicionário, significa “jogo atlético constituído por um sistema de ataque e defesa de caráter individual e origem folclórica genuinamente brasileira, surgido entre os escravos procedentes de Angola”. Porém, para o professor e dançarino Rildo do Amor Divino Santos, 34, capoeira é uma forma de inclusão na sociedade. Rildo tem ajudado crianças de sua comunidade a se livrarem das drogas e da violência.

Aos 11 anos de idade, conheceu a capoeira, através de um projeto do governo. Com o passar dos anos, tornou-se mestre de capoeira, o que lhe deu a chance de viajar para o exterior, indo à Alemanha, onde aprendeu um pouco da língua. Passou três meses fora do Brasil ensinando aos alemães o esporte originado de Angola. Rildo percebeu a diferença entre o Brasil e a Alemanha. Ficou impressionado com a educação alemã, quando soube que as crianças começavam a ir à escola com seis meses de idade e com 7 anos já falavam dois idiomas.

A volta de Rildo ao Brasil foi impactante. Quando ele retornou, estava sendo exibido o filme “Cidade de Deus”. As crianças da sua comunidade, por verem os personagens e tomando-os como referencial, começavam a brincar com armas feitas de barros, simulando a violência exibida no filme. O professor de capoeira, assustado com a situação que presenciava, tomou a decisão de ajudar e tirar as crianças de sua comunidade da margem da sociedade. “Foi horrível ver as crianças do meu bairro brincado com armas de barro, fingindo que eram Zé Pequeno e Buscapé”, afirma Rildo. Foi a partir daí que o capoeirista começou a trabalhar pela comunidade.

Infância
Quando criança, o capoeirista passou fome e viveu em uma estação de trem. Rildo não conheceu o pai. Quando engravidou, a sua mãe trabalhava com “roupa de ganho” e era sustentada pela família. O capoeirista só começou seus estudos aos 14 anos, devido à falta de documentos, que sua mãe não obtinha, pois seu pai não teria registrado e por falta de informação sua mãe também não o registrou. Rildo aprendeu a ler nas ruas de Salvador quando vendia picolé e trabalhava de camelô.

Rildo teve uma infância muito precária. Hoje moram com ele seus três irmãos, sua mãe e seu filho. Rildo, entre os irmãos, é o mais sucedido em termos socioeconômico. “Antes minhas tias diziam que eu daria pra ruim, que eu seria um ladrão e drogado, mas hoje eu sou o orgulho da família”, diz Rildo. Apesar de ter vivido em um lugar propicio as drogas e a marginalização não experimentou nenhum desses problemas sociais. Nunca experimentou droga. Começou a trabalhar muito cedo. E essa educação que passa para Anderson, seu filho. Que por sua vez é criado sem a presença da mãe, que o abandonou em Goiânia.

Sonho
O seu maior sonho é montar uma ONG, para suprir as necessidades de seus conterrâneos. Não quer que as crianças de hoje passe pelo que ele passou. “Eu sei os problemas que a minha comunidade passa”, conta Rildo. Segundo o professor, o lugar onde mora é um lugar rico, a maré tem peixe, o parque (Parque São Bartolomeu) tem frutas, as autoridades que não percebem isso e passam a não investir na comunidade.

A ação social de Rildo começou quando ele, ao chegar da Alemanha, e seu filho Anderson, 7, montaram uma roda de capoeira em frente a sua casa com cerca de 40 crianças. Isso foi fundamental para que Rildo pudesse perceber que através da capoeira poderia estar modificando gradativamente a vida da comunidade. Atualmente ele tem uma sorveteria em sua casa e dá aula de capoeira em escolas das 8h às 20h. Sem contar as aulas de dança que leciona em outras entidades. Participa também de eventos onde apresenta a capoeira como forma de integração social.

(novembro de 2006)

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