Geladinho e pipoca na porta da escola!

Posted on 29/05/2007 por

1


por Lise Oliveira
ilustração de Clara Hiroki

O intervalo é a partir de 15h45, mas às 15h30 já existe uma certa movimentação de alunos dentro da escola. Uma garota pede: “uma salada de frutas, por favor”, enquanto isso, seu Eduardo lhe serve animado, contando histórias a um amigo que concernem à dinâmica de vida da população de São João do Cabrito, bairro de Plataforma. Outros alunos já aguardam dentro da escola, com as mãos agarradas nas grades do portão que em poucos instantes será liberado para a saída. Assim, às 15h40, os alunos já são liberados para o intervalo, e toda o clima de animação começa fora dos portões do Colégio Estadual Bertholdo Cirilo dos Reis, próximo à Cesta do Povo, em São João do Cabrito. 

É o segundo ano do comércio de seu Eduardo Viana em frente ao colégio e também a sua primeira experiência no ramo comercial. Além da salada de frutas vendida a R$0,80, vende sucos a preços de R$0,40 e R$0,60, e geladinhos, e a maior saída em sua barraca, montada exatamente em frente aos portões do colégio, é o geladinho de buballo de R$0,35, que a garotada não resiste.

Em aproximadamente dez minutos, a senhora Nice Viana, esposa de seu Eduardo, vende um total de quase quinze geladinhos. O de acerola também tem as suas preferências, mas o geladinho de buballo é unânime entre os alunos do turno vespertino de 5ª a 8ª série do colégio.
“Uso a essência do chiclete buballo. É como se fosse a recomposição do sorvete”, revela Nice o segredo do maior sucesso do seu comércio. Dona Nice esclarece que o geladinho de buballo foi uma idéia sua. Resolveu testar, e o resultado foi positivo entre os que provaram. O geladinho, de cor azul intenso, é preparado todos os dias por dona Nice. Cerca de 30 geladinhos são levados para a porta da escola. Toda a família está envolvida no comércio.

Leonardo Viana, 18 anos, é filho de dona Nice e seu Eduardo e também ajuda seus pais na hora de vender. “Ela quem prepara tudo”, afirma seu Eduardo a respeito de Dona Nice, mas ela nega a autoria de tudo e declara sobre a coletividade no preparo dos alimentos: “todos nós quem fazemos as coisas”, diz. Dona Nice afirma existir uma boa relação entre os alunos e seu comércio e acrescenta a confiança que a diretoria do colégio deposita sobre as vendas de sua família: “Nós acabamos ajudando a escola porque sempre que os alunos precisam de alguma coisa, eles compram pelo portão, sem precisar sair da escola. É uma comunidade em si”.

Do lado oposto de dona Nice e seu Eduardo, também em frente aos portões do colégio, está Seu Ari Souza e sua PipocARI, além de muitas outras guloseimas. “Ari me dá uma pipoca de R$0,50”, pede uma garota da 5ª série do Colégio Bertholdo. Enquanto coloca a pipoca doce, feita com chocolate em pó, e derrama o leite condensado no topo da pipoca, outro aluno se aproxima e grita: “seu Ari, me dá um queimado de R$0,05”. Seu Ari entrega a pipoca e imediatamente, pega a bala do menino. “Valeu”, responde o menino entrando na escola.

Já são 16h10, o intervalo está no fim, mas ainda existem muitos alunos dentro da escola agarrados às grades do portão, com muitos pedidos ainda a fazer de pipoca doce e geladinho de buballo, principalmente. Seu Ari tem 56 anos, trabalha durante os três turnos em frente ao colégio Bertholdo vendendo o saquinho de pipocas doce e salgada por R$0,50 e R$0,80. Dia 29/03/2007, o Colégio Estadual Berholdo Cirilo dos Reis completa 26 anos, e juntamente com ele, seu Ari, em 14/04/2007.

Começou com pipoca até estender para doces, salgados, salgadinhos, chicletes, refrigerante, etc. “Vendo tudo, menos cigarro”, revela, orgulhoso. Por estar há tantos anos em contato com os alunos do colégio Bertholdo, seu Ari é integrante do colegiado há seis anos. Possui o certificado de membro do colegiado da Secretaria de Educação. Seu Ari, mais do que qualquer outro funcionário, conhece bem os alunos do colégio, e por isso, discute nas reuniões as melhorias necessárias para merenda escolar, segurança, professores, diretoria, etc. “Ouço muito os alunos”, revela seu Ari, que hoje atende alunos filhos do alunos que atendia na época de escola. “Seu Ari, uma pipoca de R$0,50! Bora Ari, rápido Ari!”, fala ofegante uma aluna.

O intervalo já terminou, alguns alunos ainda entram lentamente para suas salas, muitos com o geladinho azul na boca e outros com pipoca doce e mãos cobertas do leite condensado. “Beleza”, exclama entusiasmada a mesma menina depois que seu Ari derrama leite condensado em sua pipoca doce. Enquanto isso, a família Viana se despede, desmontando sua barraca e guardando-a dentro das dependências do colégio. Eles trabalham pela manhã e à tarde em frente ao colégio.

Seu Ari mora em Plataforma, mas já morou em São João do Cabrito, bem próximo ao colégio. Antes do comércio, foi enfermeiro e afirma que o comércio é muito mais lucrativo. Na mesma data de inauguração do Colégio Bertholdo, em 29/03/1981, ele iniciou suas vendas. Inicialmente, a pipoca era salgada, depois veio a adição de doce de morango, mas não deu muito certo. A pipoca doce, feita com chocolate em pó, é a grande pedida há 26 anos.

“Plataforma inteira conhece a pipoca de Ari”, revela com prazer. “Ninguém vende a pipoca a R$0,50, só eu mesmo”, acrescenta. Os salgados como coxinha e pastel são preparados por sua mulher. A pipoca é ele próprio quem faz. No início, Seu Ari trabalhava sozinho, mas hoje conta com três ajudantes, que auxiliam na venda das outras guloseimas. A pipoca é ele mesmo quem serve aos alunos.

A parceria mútua prevalece no ambiente do comércio entre seu Ari e a família Viana. Antes da chegada desta, seu Ari vendia geladinho, mas cedeu à oportunidade desta venda para a família. Ele revela que a venda de geladinho não foi satisfatoriamente lucrativa: “Não valia a pena. Fruta cara, energia cara, saco caro. Resolvi parar”, confessa.

Na opinião do vigilante Deraldo de Jesus, de 37 anos, o comércio funciona de uma forma saudável e os alunos aprovam: “O comércio é tranqüilo, os alunos gostam muito, no dia que acaba o geladinho de buballo fica difícil. Tem dia que não dá conta”, declara sorrindo o segurança que trabalha das 7h às 19h no colégio.

Segundo a diretora geral da escola, Graci Encarnação, a existência do comércio na porta do Colégio Bertholdo funciona como uma complementação do exercício de assistência ao alunado da escola: “Para a gente é muito cômodo porque quando acontece qualquer coisa, eles anunciam logo”, esclarece. A diretora Graci, há oito anos no comando de sua função, acredita na interferência de seu Ari nos assuntos relacionados ao colégio. “Ele é um ótimo intermediário”, relata. O carrinho de pipoca fica todos os dias aqui dentro”, reforça. “Os alunos merendam aqui dentro e vão logo lá pra fora. Os professores também consomem”, acrescenta.

O término do intervalo é acompanhado pela ida da família Viana e permanência de seu Ari, que chega às 07h e só vai embora às 22h. Antes, às 06h, passa na Feira de São Joaquim para comprar as guloseimas e os materiais que garantem o sucesso da PipocARI.
(maio de 2007)

Anúncios
Posted in: ECONOMIA