Abandono histórico

Posted on 29/05/2007 por

2


por Maísa Amaral

Periperi, região do subúrbio com muita história, atualmente encontra-se esquecida. Hoje, a maioria dos locais importantes para a região estão degradados, como a praia e a estação de trem. Um dos motivos que aumenta esse descaso é a falta de informação histórica sobre o bairro, pela comunidade local, e a pequena quantidade de livros que abordam o assunto. Esses foram os fatores que levaram à criação de projetos para resgatar a história do bairro, como o Centro de Estudo e Memorial Trem da História (CEMENTH).
Pedagoga e antiga moradora do bairro, Celeste Oliveira relembra um pouco da história de Periperi. “Antigamente o local era habitado por índios, que chamavam de “Piripiri”, que significa planta aquática, um tipo de junco. Originado da Fazenda Periperi, que pertencia ao Coronel Frederico Costa, começou a se desenvolver como bairro com a construção da Estrada de ferro ao São Francisco, inaugurada em 1860, cujo primeiro trecho ligava Calçada à Base Naval de Aratu”.
Na década de 40, Periperi era uma região de veraneio para a população de classe alta. O local, de uma beleza indescritível, era freqüentado por pessoas famosas como Dorival Caymmi e Jorge Amado. O desenvolvimento de Periperi como bairro residencial ocorreu através dos operários da Viação Férrea Leste Brasileira. Para a instalação deles foram edificadas aproximadamente 20 casas, dando surgimento a uma rua linear de barro denominada de Primeiro de Setembro ou rua da Estação, como é popularmente conhecida.

Mas a ligação entre o passado e o presente está praticamente perdida, pois a maioria dos locais atrativos já se acabaram ou estão abandonados. A praia é um exemplo: antes linda e local de veraneio, hoje está totalmente poluída. A estrada de ferro, que atravessa todo o subúrbio, 13 quilômetros de extensão, está abandonada pelo governo. E o Parque São Bartolomeu, uma imensa área verde com cachoeira que servia para rituais de candomblé, agora está abandonado e sendo usado como local de desova de corpos pelos grupos de extermínio da região. “Uma comunidade sem história nunca será valorizada”, declara Celeste.

Um outro grave problema é a poluição da praia, por lixos domésticos e esgotos de hospitais, uma das marcas da história do local. “Todo o esgoto que vem do hospital Caribé, da clínica Clisur e da Clínica de Praia Grande são jogados na praia. A gente nem pode tomar banho, pois quando sai da água fica se coçando e depois a pele fica cheia de manchas. Algumas vezes pegamos algumas doenças, como hepatite”, declara a moradora Gilvânia Souza Santos.

Indignados, alguns moradores não aceitam que o bairro caia no esquecimento. “No passado, Periperi era valorizado e muito importante. Para quem não sabe da linda história do bairro, não liga para o descaso do governo pelo local, mas quem conhece fica revoltado e não aceita que o bairro esteja nessa situação” diz o morador Cleiton Pedrão Santos.

Resgate cultural

A quantidade de livros que abordam a história do local é muito pequena. Esse é um elemento que dificulta o contato da população com a trajetória do bairro. “Moro aqui há 20 anos e não sei muito da história do meu bairro. Os livros não contam história de Periperi. A única coisa que eu sei é que o bairro já foi local de veraneio”, afirma a aposentada Maria Olina de Jesus. A falta de informação histórica sobre o bairro, entre os moradores, foi o fator que levou a pedagoga Celeste Oliveira à criação do CEMENTH.

Formado por 16 alunos e professores do colégio Photencial, o projeto tem como objetivo principal resgatar a cultura, a origem e história do bairro de Periperi promovendo um intercâmbio cultural e artístico entre o centro de estudos e a comunidade local. Para que essa relação seja positiva, o CEMENTH criou uma biblioteca histórica, pois a população não tem boas opções de ensino.

Primeiros passos
Com o projeto, a comunidade local passou a ter um conhecimento da história do seu bairro. A aluna do colégio Photencial Adriana dos Santos, 17 anos, declara que é muito importante fazer parte desse grupo de estudo, pois agora ela tem como transmitir todo o seu conhecimento da história do bairro para sua mãe, suas amigas e fazer com que o bairro seja reconhecido e valorizado por outras pessoas.

O CEMENTH vem tentando resgatar toda a história do bairro e, através de seus alunos, passar as informações para a população local. No momento são poucas as pessoas que sabem sobre o passado de Periperi, mas Celeste afirma que o trabalho ainda está começando e que não vai desistir. “Sei que ainda falta muito, mas o primeiro passo já foi dado. A biblioteca já está funcionando e os alunos do Photencial estão sabendo do passado do bairro. Agora temos mais uma batalha pela frente: divulgar esse conhecimento para a comunidade”. Sem o conhecimento histórico do local, a identidade do bairro será, dificilmente, formada.

(dezembro de 2003)

Anúncios
Posted in: CIDADE