Inclusão e cidadania para a paz: Projeto Plataforma

Posted on 29/05/2007 por

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por Lise Oliveira

Ambiente silencioso, organização notável. Localizado no subúrbio ferroviário de Salvador, no final de linha de São João do Cabrito, encontra-se o Projeto Plataforma. Uma casa de dois andares. Embaixo, alunos concentrados na construção de um mosaico e, mais ao fundo, outros alunos envolvidos em marcenaria. Em cima, sala com computadores, cartazes, mesa grande no centro e mais alunos. Adentro, setor financeiro. Aracy Matos é a auxiliar de escritório e enfeita as paredes da sala com as mandalas em tela de sua autoria. Logo depois, cozinha e refeitório e mais um traço da arte no subúrbio: vista extraordinária para a baía de Todos os Santos.

Inicialmente criado com base numa filosofia de grupo de estudo, o Projeto Plataforma assiste 30 estudantes residentes do mesmo bairro. Apoiado pela Petrobrás e pelo instituto russo Röerich, o projeto é composto por três núcleos de estudo nos quais se inserem os alunos: Mediação Cultural, Mosaico e Marcenaria.O instituto Röerich, criado em 1999, tem como objetivo revitalizar a inteligência cultural das pessoas através de iniciativas educacionais que estimulem e conservem o potencial político-cultural humano. Em 2005, o Projeto Plataforma foi o foco de assistência do Instituto, que já capacitou 40 jovens do bairro do subúrbio. Nesta etapa, 25 jovens estão encaminhando para as ações cooperativas de suas atividades por meio de um maior engajamento funcional dos núcleos.

Todos os funcionários se envolvem no processo de formação dos alunos. Silvia Porto é a monitora do projeto e já foi coordenadora do colégio Apoio e Integral e parte do núcleo técnico pedagógico da Faculdade Hélio Rocha. Jonas Paim é auxiliar administrativo. A alimentação dos estudantes é responsabilidade de Adalcy Leite, a Dacinha e sua auxiliar Ivanil ou Nil. A proteção do projeto Plataforma é assegurada pelo vigilante José Eliovaldo, o Zelito, filho do falecido mestre popular de mesmo nome.

A artista plástica Denise é coordenadora geral do projeto, além de ministrar juntamente com professora Laura o núcleo de Mosaico. Genilson Silva é professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do núcleo de Mediação Cultural. Daniela é a coordenadora pedagógica do projeto e Vilmário Bomfim media o núcleo de Marcenaria.

Desenterrando as raízes culturais

No carnaval tem desfile de pierrots. Dia 1º de Julho, apresentação das senhoras de Santa Mazorra. Dois dias de festa dos pescadores em Agosto. Tem a marujada e os mestres populares. Estes são alguns componentes da cultura local, estudados pelo núcleo de Mediação Cultural. A aluna Rosângela, integrante do núcleo, estabelece o link comunidade-projeto. Conhece bem a dinâmica da população de Plataforma e viabiliza articulações na comunidade.

À mesa, apostilas e papéis, muitos papéis. Reunidos em torno de Genilson, os alunos do núcleo lêem muito, sugerem, propõem. Os assuntos são locais, mas o interesse é geral. E o conteúdo é extenso. Todo ele relacionado à temáticas que concernem à tradição comunitária de Plataforma. “O mais interessante é falar de onde a gente vive”, afirma a aluna Rafaela Lima, 19 anos. “A partir da divulgação de nosso trabalho, viabilizamos os outros projetos”, completa.

Para o professor Genilson, além de aperfeiçoar a autonomia e facilitar o estudo, os alunos desenvolvem um empreendimento coletivo. Ele ainda comenta sobre a interação que prevalece entre os três núcleos: “são três vias diferentes conectados em um único objetivo. Os valores estão agregados”. A estudante Rosemaria Batista exprime orgulhosa a importância dos estudos que realiza: “é o núcleo cabeça do projeto”, confessa.

Plataforma de poesias e mestres

Amor e Plataforma. Amor em Plataforma. Amor por Plataforma. Estes são alguns dos temas abordados pelo poeta e mestre popular Péricles Santana, Perinho para suas poesias e população do bairro. Casado com a professora Laura, Péricles atua na oficina de cultura pela tarde. Mora pertinho do projeto, mas está presente em todo o bairro de Plataforma, nos muros pintados por ele com seus versos. Sua casa é a mais nobre expressão de seu trabalho poético. Versos em preto destacam-se no fundo azul e rosa das paredes e se estendem por toda a casa. Com apenas três vãos, seu livro inteiro surge e engrandece a morada com a cultura que escreve.

A ligação entre as atividades é exercício constante e continuamente renovado no projeto. Desta forma, o núcleo de mediação cultural, ao divulgar as questões tombadas pelo patrimônio histórico, fomenta também esta riqueza cultural humana presente no subúrbio. Fomentar o trabalho feito por Perinho e o falecido Zelito, também mestre popular, é uma de suas funções. Zelito era pescador. Participou da construção da ponte do terminal de trem em Plataforma, além de ter sido um grande contador de histórias.

A produção de uma videobiografia sobre sua vida é o trabalho momentâneo do núcleo. Com o apoio da TVE, o projeto desenvolve e divulga esses e outros estudos acerca da personalidade cultural de Plataforma.

Mosaico, Marcenaria e extensão
Família, amigos, vizinhos, colegas ou mesmo conhecidos. Toda a comunidade se envolve com a dinâmica de produção do projeto Plataforma. Este é o princípio que rege a existência das oficinas, por exemplo, além das festas populares, eventos, palestras, exposições, meios de comunicação etc. Anualmente, o projeto atinge 40.000 pessoas através de apenas 30 jovens mentes produzindo riqueza com matéria prima do seu próprio espaço cultural. “O crescimento econômico se dá do lado oposto do subúrbio ferroviário e existe um débito histórico com a região”, declara Silvia Porto, referindo-se ao desprezo social sofrido pelo subúrbio ferroviário de Salvador.

Concentrados envoltos de uma extensa mesa dispõem-se dez alunos. Ouve-se apenas o ruído conjunto da quebra de azulejos. É o núcleo de mosaico, nos reparos finais do painel especialmente produzido para o restaurante Boca de Galinha, um dos pontos atrativos de Plataforma. Trata-se de uma doação para divulgar o trabalho do núcleo. “O mosaico é uma terapia para mim. É prazeroso fazer e ter o reconhecimento. Este trabalho está sendo bem visto por todos e estou certa de que o retorno será bom”, afirma orgulhosa a estudante de 23 anos, Manuela Mello. Muitos peixes e muitos tons de azul constituem o panorama do painel.

Com uma estrutura conjunta irregular, o mosaico surge de forma definida nas mãos dos alunos, e o raciocínio lógico de sua formação é realizado de maneira conjunta e harmônica. “O mosaico possui toda uma metáfora de trabalho coletivo”, declara Silvia Porto, admirada com os toques finais do painel.

Ao fundo, madeira e serrotes. Composto por 12 alunos, o núcleo de Mosaico é administrado pelo professor Vilmário. Lojas de design como Tok Stok servem não só de inspiração, mas também de incitação na mostra dos trabalhos realizados pelos alunos do núcleo. Para o coordenador pedagógico Genilson, o contato com lojas como essa é essencial para que os alunos entendam o significado do produto do mercado. Sílvia Porto revela que a competitividade mercadológica é uma dinâmica mais sensível para eles, e o perfil de cada um é o que determina a inserção num específico núcleo. “Tudo faz parte de um processo gradual, onde existe um tempo de sensibilização, qualificação e amadurecimento. Trabalhamos muito a auto-estima deles”, relata.

O projeto Plataforma fica na rua Sá de Oliveira, nº 47, em São João do Cabrito, e está aberto a visitas pela manhã durante o funcionamento dos núcleos, e à tarde quando acontecem as oficinas. Mais informações através do telefone 3398-3390 ou pelo e-mail reorichplata@yahoo.com.br

(maio de 2007)

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