Meu trabalho, meu lar

Posted on 29/05/2007 por

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por Amanda Barboza

Garagens, varandas, terraços e calçadas. No subúrbio, qualquer lugar é bom para abrir um negócio. Muitas vezes, o negócio fica na porta, ao lado e até mesmo dentro da própria casa. Sorveterias, lanchonetes, bares, salões de beleza, boutiques, locadoras de filmes, mercearias e lan houses compõem o cenário mercantil dessa área.

 

Caminhando pelas ruas de Periperi, observa-se que o comércio informal é o maior fomentador da economia local. A lanchonete da operadora de telemarketing Andreza Mores, 34 anos, é um ótimo exemplo dessa forma peculiar de comércio. De segunda a sexta-feira, Andreza sai rapidamente do seu emprego formal para ir trabalhar na sua lanchonete. Ainda cansada e suada da correria do seu cotidiano, Andreza se prepara para assumir o comando do seu pequeno negócio. Ela resolveu ampliar sua renda abrindo a lanchonete na varanda de sua casa. A simplicidade caracteriza perfeitamente a lanchonete de Andreza: há apenas uma mesa e duas cadeiras reservadas aos clientes. “House Lanches” é o nome do seu negócio, já que se localiza dentro da sua própria casa.

Ao lado da lanchonete, Andréia Silva, 24 anos, abriu uma boutique na porta de casa. “Eu escolhi vender roupa porque não estraga e não tem tempo bom ou ruim para vender. Agora mesmo eu estou vendendo muita calça jeans, meia branca e toalhinha”, afirmou. A loja chamada de “Déa Boutiques” nasceu da necessidade e do prazer da dona em vender roupas. Andréia disse que não é porque vende roupas que tem menos trabalho que uma dona de lanchonete: “Roupa não estraga, mas eu tenho que ficar o tempo todo arrumando, limpando a loja e trocando as roupas das manequins”.

Uma locadora de filmes e uma lan house dividem o espaço que seria de uma casa. O dono dos dois estabelecimentos é Cássio Deiró, um policial que abriu um negócio em baixo da casa dos pais. A locadora, chamada de “Triplo C” por causa das iniciais da família, já existe há três anos. A lan house ainda irá completar um ano. Cássio decidiu montar a locadora depois que perdeu o sogro. Sua esposa precisava de um emprego que lhe desse condições de cuidar da mãe, que estava debilitada devido a perda. Nas horas em que a esposa de Cássio não pode cuidar do estabelecimento, Aloísia Deiró, irmã do proprietário, cuida da locadora, enquanto Jerônimo, sobrinho de Aloísia, cuida da lan house.

Negócio inusitado

Periperi conta, também, com a Escola de dança do ventre Kalla Al Rabie, um dos negócios mais inusitados do Subúrbio. A idéia de abrir a escola foi de Emanoela Amorim, 19 anos, e Gabriela Amorim, 21 anos. Emanoela é estudante de biologia e faz dança do ventre há seis anos. Sua irmã, Gabriela, tomou aulas no Curso de extensão de Violão Popular oferecido pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e hoje dá aulas tanto de violão quanto de dança do ventre.

As aulas ocorrem no terraço da casa das irmãs. As alunas que não têm condições de pagar os R$ 25 da mensalidade recebem aulas de graça. Emanoela ainda ajuda às alunas nos deveres de casa. Gabriela também já deu reforço escolar, mas acabou desistindo quando viu aumentar muito o número de alunos. “Chegou uma época em que uma sala inteira do Adventista queria tomar aula aqui em casa”, afirmou Gabriela.

O pai delas, Luís Carlos Orleans, 46 anos, diz não se incomodar com a movimentação dentro de casa. “Meu pai é o animador nos intervalos da música”, completou Emanoela. Ela ainda diz que muitas meninas nunca tiveram essa oportunidade e que algumas costumam passar a tarde inteira na casa das professoras. Elas ainda promovem festivais para arrecadar dinheiro e, assim, ampliar a escola.

Lan houses
É quase impossível andar por 100 metros e não ver uma placa “Acesso a Internet”. Essa forma de ganhar dinheiro conquistou os quatro cantos do Subúrbio. Uma hora de acesso custa apenas R$ 1 e ainda é possível encontrar promoções em alguns lugares. Segundo a estudante Karolyne Lacerda, 21 anos, moradora do Subúrbio, às vezes em única rua é possível encontrar até três lan houses. “Eu acho bom que tenham tantas lan houses no Subúrbio. O pessoal daqui muitas vezes não tem condições de ter internet em casa. Por R$ 1, todo mundo tem acesso fácil e rápido à internet”, afirmou Karolyne.

A estudante é uma das muitas pessoas que utilizam os serviços das lan houses. Ela diz que, nesses lugares, é melhor usar a internet para fins mais rápidos como, por exemplo, acessar e-mails ou o orkut. Segundo Karolyne, estudar e fazer pesquisas em lan houses é extremamente difícil devido à constante movimentação do lugar. O fato é que, para um povo que ainda necessita de tantas coisas, um ambiente dessa categoria acaba promovendo uma inclusão digital, mesmo com certo nível de deficiência.

A falta de licitação da prefeitura é uma das características mais comuns desse tipo de comércio. Edvaldo Ramos, administrador da Administração Regional (AR) do Subúrbio, afirma que a prefeitura não costuma cobrar licença de funcionamento para esse tipo de estabelecimento. “A prefeitura entende que essa é a forma dessas pessoas tirarem o próprio sustento”, afirmou o administrador. É fácil ver que em muitas ruas e esquinas o comércio informal é o grande responsável pela geração de renda do subúrbio, caracterizado principalmente pela criatividade, dedicação e força de vontade.

(maio de 2007)

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Posted in: ECONOMIA