Parque dos orixás

Posted on 29/05/2007 por

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por Sara Cerqueira

Santuário ecológico e religioso afro-baiano, memória e esquecimento da história da Bahia. Esse é o Parque de São Bartolomeu, que vai de Pirajá a Plataforma, no Subúrbio de Salvador. A “magia verde” que possui, degradada ambientalmente, se mistura à magia do Candomblé, religião praticada dentro do Parque por alguns adeptos do bairro e pessoas de fora, transformando o lugar em templo sagrado.

Cachaça para Exu, roupas brancas para Oxalá e oferendas em vasos de cerâmica para todos os Orixás. Logo na entrada, perto da cachoeira, é possível notar nomes evocadores do candomblé escritos em pedras e oferendas. Roupas brancas, turbantes, um cheiro forte de charuto e muita música. Ainda não se sabe, ao certo, quando começaram as oferendas na beira da cachoeira, mas hoje as águas são consideradas sagradas por freqüentadores do Parque. “Só lavo minhas roupas aqui; é bom lavar o rosto aqui de vez em quando, limpa a alma”, diz Jaílta Batista do Sacramento, 38 anos, lavadeira.

Mas a religião ainda enfrenta preconceitos e é descriminada por alguns moradores da região. Segundo Josélia de Jesus, 45 anos, moradora de Pirajá, as pessoas não mais freqüentam o Parque na maioria das vezes por respeitar ou recriminar o lugar utilizado para a prática da religião. “A gente ouve os cânticos daqui de casa, é muito bonito, mas tem gente que não gosta e tem até medo”, diz Josélia sobre a reação dos seus vizinhos com os rituais que, na maioria das vezes, são acompanhados de músicas cantadas pelas próprias “mães de santo”, pessoas importantes na religião.

Segundo Paulo Medeiros, 40 anos, morador de Pirajá há cinco anos e estudioso da religião há 10, as oferendas aos deuses são conhecidas em quase todos os sistemas religiosos. “Uma oferenda é um presente, tem que ter significado para a pessoa que oferece. Em toda religião tem isso, então porque ter preconceito com o Candomblé?”, questiona ele.

Poluição

De acordo com a técnica do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu (CEASB), Maria do Carmo Barreto de Sá, o parque vive uma situação de degradação ambiental, devido ao despejo de lixo nas nascentes dos rios Manuel Dendê e rio do Cobre, responsáveis por uma das maiores quedas de água da Bahia. “O Parque tem 750 hectares de terra, ou tinha, pois com o processo de desmatamento e invasão não sei quanto ainda resta”, diz a coordenadora. O CEASB foi criado em 1996, a partir de um movimento com a comunidade do Subúrbio Ferroviário.

Religião familiar

Considerado por alguns como feitiçaria e conhecido por seus cânticos e sons de atabaque, o candomblé está presente no Brasil desde a chegada dos navios negreiros, entre os séculos XIV e XIX. Pois, nesses navios, vieram escravos africanos que traziam mais do que seu suor e sofrimento, traziam também a força de seus sacerdotes e deuses.

Hoje, é uma das religiões mais populares do país, ganhando força especial na Bahia, pelas fortes raízes africanas do estado. Numa pesquisa realizada em 1980 pelo antropólogo Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia, foi feito um mapeamento dos terreiros existentes na região metropolitana de Salvador. A pesquisa contabilizou 1200.

Segundo o Suplemento sobre Participação Político-Social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1988, 0,6% dos chefes de família seguiam cultos afro-brasileiros e eram adeptos da religião. Uma pesquisa do Instituto Gallup de Opinião Pública, na mesma época, indicou que candomblé ou umbanda era a religião de 1,55% da população.

Oferendas a Iemanjá, deusa das águas, sacrifícios de galos de “penas pretas”, a verdade é que não se pode fugir do fato de que o Candomblé está presente nas casas e na fé de muitos brasileiros e baianos. Hoje, a diversidade de crenças e religiões está se fortalecendo, afinal, o Brasil não é composto somente por padres e vinhos, mas também por turbantes brancos, charutos e cachaça.

(dezembro de 2003)

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