Prova de amor maior não há

Posted on 29/05/2007 por

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por Cristiana Jordão Nery

Era uma sexta-feira incomum. A igreja católica de Periperi está lotada. Adultos, idosos e crianças oram. Alguns de pé e outros sentados. Pessoas com histórias e realidades diferentes, unidas com um único intuito: celebrar a Sexta-feira Santa, dia em que, segundo o calendário cristão, Jesus morreu na cruz para salvar os homens.

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Este é o refrão de uma das músicas cantadas durante a missa e que serve como uma explicação para o motivo que levou os fiéis a comparecerem à cerimônia. No altar, o padre Oliveira e alguns oradores narram o julgamento e a crucificação de Jesus. A narração termina com o momento da morte de Jesus, então a igreja fica em total silêncio. É hora de abaixar a cabeça, fechar os olhos e refletir sobre os pecados da humanidade.

Aos poucos os fiéis vão dando continuidade à missa e começam a pedir perdão a Jesus pelos seus pecados. Para isto as pessoas presentes seguem mais uma liturgia, cujo refrão diz: “Perdão, meu Jesus. Perdão, Deus de amor. Perdão, Deus Clemente. Perdoa-i, Senhor”.  A igreja é tomada por muita emoção, nos rostos das pessoas e nos seus gestos é possível constatar que a fé e a paz estão reinando nos seus corações.

Após este pedido, o padre convoca os cristãos para a “Adoração ao Cristo Morto”. “No momento final adoramos a cruz, mas lembremos que não adoramos o objeto, mas a Jesus que morreu nela para nos salvar”, comentou o padre Oliveira. Este é um momento emocionante. O padre retira um pano vermelho que cobre uma imagem de Jesus morto na cruz e, em seguida, cada fiel vai se dirigindo ao altar debruçando-se sobre ela e beijando-a como um sinal de respeito e de “prova de amor” a Cristo.

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É interessante ver como os idosos, apesar da debilidade física causada pela idade, se esforçam para se curvar diante da imagem de Cristo. Assim como é bonito ver as crianças, mesmo não sabendo do sentido daquele ato, adorando a Jesus, tendo os primeiros contatos com a prática da religião.

Procissão
A missa chega ao fim. São 6h da tarde e alguns fiéis pegam um andor, onde há outra imagem do Cristo morto. Começam a sair da igreja para caminhar nas ruas de Periperi seguindo uma procissão, e mantendo uma tradição de mais de 50 anos.

Os homens que carregam o andor são os filhos de dona Lindaura Campos de Souza, os representantes da família Bahia. A participação “dos Bahia” já faz parte da tradição. Há muitos anos dona Lindaura iniciou o costume da sua família carregar o andor na hora da saída da igreja e também na entrada após a procissão. “Minha família participa há uns 50 anos. Passou de avó, para pai, neto e agora já tem até bisneto”, afirmou um dos filhos de Lindaura, Marivaldo Campos, 68 anos.

Todos que comparecem à procissão sabem da história da família Bahia. Segundo informações, Lindaura deixou de herança para os seus filhos esta tradição. “Minha mãe quando morreu deixou um livrinho com as obrigações católicas que cada filho deveria seguir. Colocou um santo para cada um ser devoto. Além disto, todos deveriam seguir a ‘procissão do Cristo Morto’ e carregar o andor”, comentou Marivaldo.

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Os fiéis caminham. O percurso começa em um trecho da Avenida Suburbana, onde os carros são parados por alguns instantes, depois inclui uma passada pela Praça da Revolução e entra em diversas ruas de Periperi, até que finalmente, depois de cerca de 3 km retorna à igreja.

Durante o trajeto, várias coisas acontecem. Na passagem pela praça, o louvor dos fiéis é confundido com o som dos bares que estão lotados. “O que angustia são os bares com o som alto, alguns abaixam em sinal de respeito, mas outros não. Tem gente que faz da Sexta-feira Santa um dia de cerveja, de arrastões e de futebol. Lamentamos por estas pessoas e pedimos para que Jesus perdoe-os, pois eles são sabem o que estão fazendo”, desabafou a professora Miralva Lima, 70 anos.

Em alguns pontos os fiéis param nas ruas. É hora do ato de Verônica. Uma jovem vestida de roxo segue uma liturgia enquanto desenrola um pano onde está estampado o rosto de Jesus com a coroa de espinhos na cabeça. Este ato é para lembrar o feito por uma das mulheres que seguiam Jesus, enquanto este era sacrificado. Além de Verônica Maria, mãe de Jesus, João, um dos apóstolos de Jesus e outras mulheres que fizeram parte da história de Cristo são representadas por adolescentes da comunidade.

Em outro trecho a procissão também parou. Desta vez foi por que o carro que transporta o som usado para o canto dos louvores quebrou. Neste momento pode-se perceber uma bonita cena de fé. Alguns homens começaram a empurrar o veículo para que a cerimônia não fosse interrompida.

É possível ver em todo o caminho pessoas que também têm a tradição de acompanhar a procissão, só que de outra maneira. São fiéis que ficam nas varandas e nas portas de suas casas esperando o cortejo passar. Muitas destas pessoas são idosos que antigamente seguiam a procissão, mas que devido a problemas de saúde passaram a esperar em suas casas a passagem do andor.

Um destes casos é o de Rita Carvalho, uma senhora de 88 anos, que já foi vice-presidente da Irmandade Coração de Jesus (grupo católico responsável pela organização das cerimônias da igreja, principalmente as da Semana Santa), que acompanha o andor na porta de casa e emocionada dá continuidade a tradição, só que agora de uma maneira adaptada à sua condição física.

Com a chegada até a igreja, as celebrações da Sexta-feira Santa Católica em Periperi se encerram. Os fiéis retornam para as suas casas, com a certeza de que reafirmaram sua fé e o seu amor por Cristo, que, por sua vez, provou que ama os homens ao dar a vida por estes.

(junho de 2007)

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