Sede de arte

Posted on 29/05/2007 por

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por Fernanda Deiró

A aula já acabou, mas eles ainda continuam dançando. O que se vê no rosto de cada criança na Escola de Ballet de Coutos é a vontade de fazer arte. O ballet se expressa em cada gesto delicado das meninas e meninos que ainda teimam em dançar depois da aula. A falta de espaço, os pés descalços, as roupas impróprias, nada disso parece atrapalhar a vontade e a dedicação com as quais as crianças aprendem a técnica da dança.


A escola já funciona há três anos no Mosteiro do Salvador, no bairro de Coutos. O projeto faz parte do centro social organizado pelas monjas beneditinas para atender a comunidade da redondeza. Atualmente existem 250 alunos matriculados, mas apenas metade está fazendo aula. As duas únicas professoras se revezam de segunda a quinta, durante a manhã e à tarde, para dar aulas a cerca de 10 turmas. O espaço físico também é restrito, apenas uma sala de aula. No entanto, a reforma iniciada ainda em março visa construir um segundo andar, com novas salas. Mas, somente em junho, as crianças que estão na lista de espera começarão a ter aulas.

A grande maioria dos alunos são garotas de 5 a 13 anos, mas os meninos vêm mostrando que querem conquistar o seu espaço, já são cerca de 15 garotos matriculados. Entre pliés e piruetas, as crianças de Coutos aprendem a importância da dança. Além de ser uma forma de tirá-las da rua, o ballet incentiva a imaginação, a criatividade, e ajuda na formação física e mental. Os alunos ainda ganham conhecimento em música clássica, usada nas aulas e nas apresentações. A irmã Benita, uma das freiras do convento, diz que a principal função do ballet é alimentar a auto-estima dos alunos: “O importante é mostrar que eles são capazes, que podem ir além, superar os seus limites”.

A vontade de fazer arte é encarada com seriedade pelos meninos e meninas. Eles dizem que fazer aulas não é apenas uma distração, é uma forma de se expressarem e ainda pode ser a oportunidade de crescerem como futuros profissionais. Michele Santos, 10 anos, diz que o ballet mudou a sua vida e sonha com a carreira de bailarina. “O ballet é a coisa mais importante pra mim, quando crescer eu quero ser bailarina profissional. Ah, e atriz também!”, declara com seriedade de quem sabe o que quer. Tays Conceição, 12 anos, concorda com a amiga e cita a Escola de Ballet do Bolshoi em Joinville, Santa Catarina, como um sonho que quer conquistar em breve.

Há pouco tempo, a colega de Tays, Brenda Tavares, foi selecionada para fazer um teste para a instituição e, com apoio da professora, dos familiares e de uma patrocinadora baiana, a garota ficou em primeiro lugar no concurso. Hoje, Brenda serve de estímulo para todos os alunos. A sua avó, dona Lindaura, faz questão de dizer que graças à escola de Coutos a neta hoje tem um futuro garantido, e se orgulha em repetir que Brenda é uma bailarina que saiu do subúrbio para o mundo.

As crianças já se apresentaram três vezes em teatros. Na primeira vez, apenas algumas meninas foram convidadas pela Escola Ebateca para participar do seu espetáculo de 25 anos no Teatro Castro Alves. Na ocasião, as alunas dançaram um clássico do filme “A noviça rebelde”, para um público composto por especialistas em dança. A segunda apresentação fez parte do projeto “Encontros”, no Liceu de Artes e Ofício, e teve a participação de toda a turma de ballet. O espetáculo, dividido em 15 danças, é considerado um marco para os alunos e professoras, pois veio representar o resultado positivo do trabalho desenvolvido. O grupo ainda fez um espetáculo no Teatro Jorge Amado, e faz apresentações nas missas que acontecem no Mosteiro.

Atualmente, a escola conta com poucos patrocínios. Apenas a construtora Conseil e a loja de departamento C&A apóiam o projeto. A mãe de Michele, Georgette Ferreira, que se tornou uma das principais organizadoras, diz que o grupo já conseguiu grandes resultados, como a confecção de figurinos para os espetáculos, e de collants para o uso nas aulas.

O esforço de Georgette, das professoras e das monjas é reconhecido a cada aula em que os alunos se esforçam para aperfeiçoar sua técnica. Há turmas que já fazem aula em níveis mais avançados, usando inclusive a sapatilha de ponta, um desafio para bailarinas de todo o mundo. São visíveis o amor, a dedicação e o respeito com os quais as crianças encaram a arte. As alunas Beatriz Paiva, de 9 anos e Vanessa Lima, de 8, se juntam para dizer: “O ballet é lindo, é tudo nas nossas vidas. É o que a gente quer fazer para sempre, até mesmo depois de morrer”.

(maio de 2007)

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Posted in: CULTURA