Variedade e preço baixo

Posted on 29/05/2007 por

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por Carla Prates e Lana Oliveira

“Olha a goiaba, 3 é um R$1. Homem bonito não paga, mas também não leva. Vamo comer goiaba, gente!”. É assim que Cristina Marques, 27 anos, começa o dia. A impressão é de que ela tem a banca de frutas na feira de Periperi há bastante tempo, mas faz apenas um mês que seu pai resolveu vender na feira para sobreviver. 


Trazendo mangas de Aratu e produtos como banana, goiaba, caqui e maçã do Centro de Abastecimento de Salvador (CEASA), Cristina conta que o produto mais vendido em sua banca é a acerola, e que os preços das frutas variam diariamente, de acordo com o preço de compra: “Às vezes dá pra vender 4, 5 goiabas por R$1. Hoje, só tá dando para vender 3 por R$1”.

Na barraca de Cristina encontrei Maria Valéria Silva, 66 anos, personagem importante para conhecer os dois lados da feira: o comprador e o feirante. Nos anos 80, ela vendia temperos que vinham das Sete Portas. Hoje, como consumidora, se queixa dos preços: “Antes a gente comprava sete goiabadas por R$1, hoje tô aqui suando pra que me vendam quatro. Mas a variedade aumentou bastante”.

Por indicação de Valéria, encontramos o paraibano Amando da Cruz, 37 anos. Quando chegou a Salvador, há três anos, vendia panelas de barro em feiras de outros bairros. Ele resolveu montar uma banca de roupas em Periperi porque o número de compradores é maior: “Periperi é a cidade do subúrbio mais movimentada porque tem cartório, banco, caixa, lotérica. Na Calçada, o número de pessoas também é muito, mas a concorrência também”.

Na banca do paraibano, os produtos mais vendidos são bermudas e camisetas, vindos de Feira de Santana, Pernambuco e Caruaru. Amando explicou que comprando uma bermuda de tactel a R$8, ele vende a R$10 ou até R$12. “As mães sabem que a garotada gosta de usar. Enquanto o meu preço for esse elas vão continuar comprando aqui. Pagando transporte pra ir no centro da cidade sai mais caro”.

A conversa com Amando se estendeu a Rosinha Silva, 32 anos, que comprava bermudas para o filho e resolveu me levar “enganar o estômago”. Foi aí que conheci Maria da Conceição Santos, 44 anos, que vende salgados e cachorro quente na feira há 4 anos. Os salgados vindos do Mirantes de Perperi são vendidos a R$1 com suco. “Comecei aqui por necessidade. Claro que se eu arrumasse um trabalho melhor eu ia, mas gosto de vender aqui”.

Ainda com sede, fomos até Jorge Rodrigues, 48 anos, que vende água de côco em Periperi e na Barra, onde tem vários carrinhos. Os côcos são trazidos de Acajutiba. “Compro lá porque é mais vantagem comprar o caminhão fechado e aqui não vende. A unidade sai de Acajutiba a mais ou menos R$0,30, mas chega caro por causa do transporte”. Na feira, Antônio vende o copo de 300ml a R$0,50 e o de 500ml a R$1.

Quando pensei já ter encontrado de tudo, conheci Valdir Santos, 55 anos, que tem uma barraca de fraldas descartáveis. São fraldas de fabricantes tradicionais que não passam pela triagem. Nos supermercados o pacotão custa R$25, já Valdir vende por R$16. De acordo com ele, a procura tanto por fraldas de criança como de idoso é grande.

Já no fim da tarde, cheguei até as bancas de DVD pirata. Apesar de pequena, a banca estava repleta de produtos, que são vendidos diariamente por Alexandre dos Santos, 17 anos. Trazidos de Feira de Santana, os DVDs são vendidos a R$3 e R$0,50.

Fuga do desemprego
Jovens que ajudam no sustento da família encontram na feira uma opção para trazer recursos para casa. “Ajudo meu pai a ganhar dinheiro para sustentar minha mãe e minhas irmãs”, disse Samuel de Jesus, 15 anos, vendedor de DVD. Há ainda o desejo de ser útil e apresentar serviço. “Vim trabalhar para não ficar parado, sem nada pra fazer”, falou Marivaldo Costa, 16 anos, vendedor de DVD há 3 meses.

Parentes e amigos ajudam-se na venda. Cada família monta sua barraca e marido, mulher, filhos ou um amigo cuida do empreendimento para garantir seu capital. “Tomo conta das barracas de um amigo. Semana passada, trabalhei vendendo DVD, hoje estou vendendo frutas”, falou o feirante Expedito Santos, 43 anos. Não é diferente com o casal que cuida da maior barraca de DVD da feira. “Eu e minha esposa trabalhamos aqui, quando estou ocupado ela vem no meu lugar. Um ajuda o outro para sustentar nossa família”, disse José Silva, 50 anos, dono da barraca há 4 anos e 2 meses.

O medo de perder o emprego é grande entre os feirantes. “Eu não trabalho, pesquisei e vi que seria bom montar esse negócio aqui na feira”, falou Maria da Conceição. O mesmo aconteceu com Valdir, que montou a barraca para deixar o desemprego: “Não tive outra opção senão vender fraldas na feira, estou aqui por muita necessidade”.Muitos donos de barraca sentem-se ameaçados, já que a feira é grande fonte de renda para a população local. “O outro prefeito tirou muita gente daqui, mas esse prefeito agora é bom. Todo mundo tem medo de perder a barraca, é nossa renda”, disse Marcolino de Souza Farias, 53 anos, dono de uma barraca de frutas.

(junho de 2007)

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