Economia suburbana na base do troca-troca

Posted on 09/06/2007 por

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por Fabíola Gabini

Roupas, eletrodomésticos, aparelhos de telefone fixo e celular, bicicleta, material escolar, utensílios de cozinha, computadores, máquinas fotográficas e até mesmo vasos sanitários. Alguns objetos parecem de origem duvidosa. Tudo isso pode ser encontrado na famosa Feira do Rolo, que acontece todos os domingos na Baixa do Fiscal, mais precisamente no Viaduto dos Motoristas. E o melhor de tudo, para quem freqüenta o lugar, é que o dinheiro não é a principal moeda do comércio, já que algumas coisas são negociadas na base da troca. 

“A feira existe há mais de 10 anos. Toda vez eu venho aqui. Tem coisa que não dá para comprar na loja, não. Tem que ser aqui mesmo. Aqui a gente consegue um preço bom, não precisa ser muito novinho, não, se der para usar já está bom”, afirma Gerusa Jorbas Carvalho. A aposentada de 68 anos conta que, no início, as trocas eram feitas entre poucas pessoas, da região mesmo. E que foi se expandindo e atraindo gente de longe desde que começaram a melhorar a qualidade dos objetos. Hoje, o movimento do Viaduto dos Motoristas chega a ser tão intenso que provoca grandes engarrafamentos.

A assessoria de imprensa da prefeitura apenas declarou que a prefeitura não tem participação alguma na feira, e que, ao contrário, muitas vezes precisa intervir quando recebe reclamações dos moradores e motoristas que passam pela região aos domingos pela manhã.

O trânsito realmente fica parado. No início da Avenida Suburbana, antes mesmo das 8h da manhã, uma fila de carros já se forma, diminuindo a velocidade, algumas vezes até mesmo tendo que parar o veículo, e nem há sinaleira ali. É o próprio movimento da feira, que invade a pista e atrapalha a movimentação do trânsito no local. O motorista de ônibus José Olintho Gama, 46 anos, disse que já presenciou de tudo ao passar por ali: “Já vi gente roubando relógio de motoristas e passageiros de carros, certamente para vender na feira, né? E muitas vezes tem briga aí, porque eles atrapalham a passagem de gente e de carro aí no viaduto”, afirma.
Ao longo de todo o caminho, pode-se ver panos estendidos no chão, pessoas procurando encontrar algo que interesse para comprar, arriscando-se nas ruas onde passam até ônibus, objetos diversificados misturados entre novos e usados fazem a alegria de quem compra e de quem vende nesse mercado livre.

No canto direito do início da rua, uma família chama a atenção. Uma mãe, aparentando 25 anos de idade, grávida, com sua gestação muito perto do final, deita-se sobre um velho colchonete próximo ao seu ponto comercial. Os filhos, todos com idade abaixo de 10 anos, negociam as mercadorias. Eles gritam, chamam os pedestres que passam, acenam as mãos com notas de diferentes valores balançadas entre os dedos.

Menor de idade “trabalhando”
O menor B.J.S., de 8 anos, quando questionado sobre a presença de seu pai para ajudá-lo, diz que este foi “conseguir mais coisas”. A mãe se assusta logo com o questionamento e se levanta, querendo saber qual é o problema. Após um bate-papo informal, explicações sobre uma reportagem sobre Economia no Subúrbio de Salvador, a mulher se acalma, mas pede que não coloque seu nome em nenhum momento da reportagem. Diz que tem medo da polícia achar que estão mexendo com coisa errada ali.

Ela diz que o “conseguir mais coisas” significa pedir de porta em porta utensílios velhos, usados e sem utilidade. Ou até mesmo procurar, nas latas de lixo, algo interessante que possa ser trocado com alguém. Isso parece uma explicação óbvia, mas difícil é acreditar que alguém jogaria no lixo uma câmera digital 6.0, ou até mesmo doaria, porque já não utilizava mais, um celular modelo V3, entre outros materiais que se encontravam entre os que estavam sendo vendidos pela mulher grávida acompanhada de seus três filhos, e ainda um para chegar. “É assim que eu me sustento, moça, é assim que a gente bota comida para as crianças”, diz.

Um soldado da Polícia Militar, que estava próximo dali, declara que estão “de olhos bem abertos” para a feira, e que dali já saíram muitos detentos que hoje estão nos presídios. Ele afirma que muitos deles são denunciados pelas próprias pessoas que tiveram seus bens levados. “Muita gente que é assaltada pela região, costuma vir à feira para procurar pelos seus pertences. Quando encontram, chamam a polícia e fazem a acusação”, diz o soldado que prefere não se identificar, e completa: “Entre esses objetos costumam ser mais facilmente encontradas alianças, celulares, relógios e pulseiras de ouro”.

Trocar também vale
Os objetos novos costumam ser vendidos. Outros objetos, usados, mas novos, podem até ser negociados com troca. Na feira, como dizem os comerciantes, vale tudo. “A troca mais engraçada que aconteceu comigo foi chegar aqui com um radinho de pilha e sair com um DVD. Eu fui trocando, trocando, até conseguir o DVD. Mas foi só dessa vez, nunca mais tive essa sorte”, sorri Joelma Lourdes da Costa, empregada doméstica, de 45 anos, freqüentadora da feira.

Os motoristas que passavam pelo local no momento da feira não pareciam coniventes com o troca-troca. Apressados, mau-humorados e nervosos com o calor e a movimentação intensa e despreocupada dos compradores, muitos passavam buzinando e reclamando. Josevandro Silveira, 34 anos, desempregado, afirma que a feira é um problema: “Isso aqui é um inferno, só dá coisa roubada e as pessoas só atrapalham o trânsito. A prefeitura sabe disso, a polícia sabe disso, e ninguém faz nada. Todo mundo finge que não sabe. Só quero ver quando vão resolver isso”, desabafa.
(junho de 2007)

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