O Batuque da Família Abi Si Ayê

Posted on 09/06/2007 por

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por Ana Letícia Oliveira

Subindo uma ladeira no bairro de Coutos, cheia de pedras e lama, atravessando uma pequena pracinha e um campo de futebol, chegamos em Parque Vista Alegre, já no final de linha do bairro. De um lado consegue-se enxergar um ponto comercial. Este não é um ponto qualquer, é a sede do Bloco Afro Abi Si Ayê. Do outro lado vemos toda a faixa de bairros que cercam o trem e o mar.

 

O dia estava um pouco chuvoso, mas haviam crianças brincando por ali. É como se a sede do Bloco irradiasse uma luz e calor, trazendo alegria aos moradores. A fachada da sede do Bloco Abi Si Ayê é toda pintada de azul e branco, e lá estão Benedito Cerqueira, presidente do bloco, e seus amigos em uma partida de baralho.

Mais conhecido como Bene ou Galo, é dono de uma força de vontade imensa. Sempre procurando dar o melhor de si em prol dos associados do Bloco e moradores do bairro. Foi um dos fundadores do Bloco Abi Si Ayê, dando seus primeiros passos em 20 de novembro de 1985 no carnaval de Salvador, e trazendo ajuda à população local, acostumada com a desigualdade social, carente de saúde, educação, informação, cultura e lazer.

Na área da educação, o Bloco implementou reforço escolar gratuito, alfabetização para jovens e adultos. Em 2001, implantou o curso profissionalizante Terra Mãe, beneficiando 30 jovens carentes do bairro. “Esse projeto foi bem aceito no bloco e na comunidade pelo fato das pessoas serem carentes de educação”, afirmou Bene. Na cultura, promove gincanas, aulas de percussão e dança afro. Além dessas atividades, mantém um time de futebol no bairro.

Os ensaios são sempre feitos ao ar-livre em frente a sede com os professores de percussão e dança, ou em uma escola que fica próxima à sede para os alunos ainda envergonhados para dançar em público. Já no segundo dia de visita, foi possível conhecê-los um pouco. José Aluiz, o maestro, começou no Bloco como percussionista há cinco anos, e já há três anos vem ensinando crianças de 7 a 16 anos. Ensina também em outras entidades como o Projeto Axé. Estudante do ensino médio, sonha se formar em Filosofia, é bastante tranqüilo e interessado em ajudar o próximo. “Meu trabalho não é somente ensinar a tocar, é formar cidadãos, fazer com que aprendam de uma forma mais fácil, e também tirar as crianças das ruas e do mundo das drogas”, desabafa Aluiz.

Depois de longas conversas e de falar sobre muitas histórias do Bloco, seguimos ao encontro do professor de dança Luís Maicon. Muito receptivo em sua aula, começou mostrando um samba regue. Dançava sorridente, com as batidas o maestro também se empolgava querendo tocar junto da música. Ao final de sua apresentação, falou da importância do Bloco para sua carreira de dançarino e também da grande satisfação que tem em ensinar às pessoas que não têm condições. Para ele, com a música e a dança pode-se transformar uma sociedade. “Os alunos estão sempre juntos, são como amigos e filhos para mim”, disse Maicon. “Sempre que tenho uma oportunidade agradeço a Bene, tenho ele como um pai, e todo o grupo como minha família sempre disposta a ajudar uns aos outros”. Todos que estavam presentes se emocionaram, muito felizes com tudo que já alcançaram, e o encontro terminou com mais uma apresentação de dança do professor Maicon.

Eventos
São feitos quatro eventos principais no decorrer do ano. A Gincana da Criança, a Festa da Criança, o Festival da Consciência Negra e a Escolha da Música Tema. O Festival da Consciência Negra é realizado em novembro, devido ao dia da Consciência Negra ser em 20 de novembro, mesmo dia do aniversário do Bloco. Nesse evento, promovido em dois dias, ocorrem palestras, debates, concursos de dança afro com capoeira e bandas de percussão, exposições de fotos, artesanatos e roupas. O tema escolhido para o Festival desse ano foi “Zumbi dos Palmares” com o intuito de fazer referência à história da cultura negra e do povo baiano.

A escolha da Música Tema será realizada em dezembro com festa de Natal para as crianças do bairro e adjacências e contará também com atividades como concursos da rainha do Bloco, música e dança afro, e apresentações da banda de percussão do Bloco Abi Si Ayê. O principal objetivo é divulgar o que será apresentado no carnaval 2008.

Atualmente o Bloco desfila no circuito Batatinha no Pelourinho. Concorrendo sempre na Categoria Blocos Afros, alcançou terceiro lugar nos anos 1993/1995, 1997 e 2005/2006, e o vice-campeonato em 1990 e neste ano de 2007. Com muita garra do presidente Bene, do maestro José Aluiz, 21 anos, e do professor de dança Luís Alberto Lima, 22 anos, mais conhecido como Luís Maicon. Cada um dos três fazendo sua parte para que o Bloco saísse no carnaval, já que não haviam conseguido o patrocínio da EMTURSA (Empresa de Turismo de Salvador) nem da Petrobras.

Bene conta bastante emocionado que foi o ano em que mais passaram dificuldades na composição das fantasias e no transporte. “Ainda lembro de ver o presidente do Bloco concorrente com um monte de sacolas de tecido para as fantasias nas mãos e eu com somente duas em cada uma. Lembro também de nas vésperas ainda estar pintando as camisas na sede e colocando para secar”, afirmou.
(maio de 2007)

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Posted in: CULTURA