Travessia na Baía

Posted on 09/06/2007 por

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por Lise Oliveira

Nem mesmo as nuvens carregadas de chuva e o céu nublado pela ausência do Sol diminuem a beleza da baía de Todos os Santos. O bairro é Plataforma, final de linha de São João do Cabrito. No local de parada dos ônibus coletivos da empresa Praia Grande surge o caminho que leva à estação Almeida Brandão. A travessia Plataforma-Ribeira foi revitalizada. Neste caminho, pessoas vão e voltam. Suas faces revelam tranqüilidade. O motivo encontra-se exatamente em volta delas: a baía, evocando paz em suas caminhadas. 

Pouco antes da chegada à estação, o ponto mais atrativo de São João do Cabrito aparece: restaurante Boca de Galinha. A auxiliar de cozinha Célia Reis não esconde a calma de suas feições mesmo executando a tarefa pesada de limpar o chão de todo o restaurante. A baía está bem em frente, como uma ilustração exposta na janela de concreto do restaurante, e dispersando o cansaço esperado de uma atividade tão maçante.

“Antes, o barco não era tão bom, a ponte era de madeira. Agora está uma maravilha. Beneficia muito a população porque o ônibus aqui é péssimo. Muita gente só dependia do (ônibus) Ribeira-São João”, relata Célia Reis. Em frente à vista do restaurante para a baía de Todos os Santos, Célia complementa: “Ainda não fiz a travessia, não tive tempo, mas estou louca pra fazer”.

Deixando o Boca de Galinha e indo mais a frente, encontramos o aposentado e morador do bairro Milton Machado voltando. Estava na Ribeira e fez a travessia até Plataforma. Seu Milton não aceita o valor cobrado para a travessia, mas assume o benefício do novo sistema de transporte: “É ótimo, mas o tempo é pouco para o preço que cobram. Já fiz umas três travessias e é muita gente para pouco trabalho”.

Chegando à estação, uma faixa enorme estendida em sua frente diz: “OS MORADORES DE PLATAFORMA AGRADECEM AO PREFEITO JOÃO HENRIQUE PELO RETORNO DA TRAVESSIA PLATAFORMA/RIBEIRA DESATIVADA HÁ 20 ANOS”. Em letras metálicas escrito “Estação Almeida Brandão”, numa parede marrom visivelmente recém pintada, o terminal já aparenta sofisticação. Num mesmo lugar, os sistemas rodoviário, ferroviário e hidroviário foram interligados. No alto, o terminal de trem, embaixo, seus trilhos também recentemente revitalizados, e do outro lado, à esquerda, o acesso às embarcações para travessia.

Aproximadamente R$700.000 foram gastos na revitalização da travessia, desativada durante 22 anos. Na década de 80, o então prefeito João Durval implantou o sistema de transporte, e seu filho e atual prefeito da capital baiana João Henrique resgatou a obra vítima de descaso público. Em sua inauguração no dia 05/04/2007, além do prefeito, o governador Jacques Wagner esteve presente. A cantora Margaret Menezes realizou um show comemorativo da revitalização para a população local.

Com apenas R$1, cerca de 1.500 pessoas são beneficiadas diariamente pela travessia. Estudantes pagam R$0,50. A estação Almeida Brandão recebeu sanitários públicos, bicicletário, lanchonete, boxes para os comerciantes e vias de acesso aos portadores de deficiência física.

De Plataforma a Ribeira, a travessia dura cinco minutos. Em intervalos de 20 minutos, 80 pessoas acessam a saída de Plataforma para a Ribeira e vice-versa. Todos os dias, das 8h às 20h, a travessia funciona. “Fim de semana faz fila”, afirma a moradora do bairro Bonfim Luciana de Freitas. A usuária utiliza-se da travessia para chegar à locadora de vídeos da qual é proprietária no bairro de Plataforma. “Venho duas, três vezes por semana”, acrescenta.

Após o agradecimento dos moradores exposto na faixa, uma ponte à sua frente nos leva ao terminal do trem, localizado logo acima dos trilhos. Seguindo em frente, uma escada com degraus direcionados à esquerda e direita, guiam até o terminal hidroviário da estação. Ao descer, uma calçada acompanha o movimento da baía até o terminal hidroviário. Suas águas chegam muito perto deste chão. Quando a água bate no pilar do passeio, a água borbulha e faz um ruído leve, quebrando o silêncio deste tranqüilo lugar.

Um campinho verde contorna os trilhos do trem logo ao lado. Escorregadeira, balanço, bancos e namorados. Este é o cenário do espaço disposto em frente à estação hidroviária. Finalmente chegamos lá. Nas águas da baía que circundam a estação, três meninos não resistem e se entregam, mergulhando sem medo aparente.

Atravessando a catraca de acesso, o vendedor de passagens Eron Araújo esclarece as conseqüências que a falta da travessia trouxe para os estudantes, mas declara que, a partir de agora, as coisas mudarão: “Alguns alunos que moravam aqui pediram transferência de escola porque demoravam para chegar. Alguns já usam, mas ano que vem muitos usarão”.

Dentro do terminal, a lanchonete está bem equipada com salgados e doces. Alguns passageiros já estão à espera da saída da próxima embarcação. Uma ponte bem estruturada une o terminal ao barco. A moradora do bairro de Coutos e agente de saúde Débora Cordeiro revela: “Se eu fosse de ônibus, gastaria 30 minutos. Como trabalho em Plataforma, faço a travessia quase todos os dias”.

“Eu pago um pouquinho a mais, mas pago satisfeita”. Este é o depoimento da moradora do Bonfim Luciana de Freitas, ainda encantada pela terceira travessia feita. O marinheiro George dos Santos acredita na nova alternativa de transporte: “Tá sendo interessante esta realização do prefeito. A população economiza tempo e dinheiro”, declara o marinheiro, há 20 dias no comando da realização da travessia.

A grande quantidade de pequenas casas em cima dos morros contorna toda a baía de Todos os Santos, e quando comparadas, a baía torna-se imponente pela beleza de destaque. É como se as moradas, mesmo de quantidade significativa, se rendessem à magnitude de seu tamanho e abrangência.

A viagem é curta. Em cinco minutos, Plataforma se vai e a Ribeira surge. Ao chegar na Ribeira, o vigilante Nivaldo Sacramento, que assegura a proteção do terminal local das 7h às 19h, declara: “Eu tô achando ótimo, a população está aceitando. Quem vinha de Periperi gastava 1h30 com o (ônibus) Plataforma-Ribeira. Agora, em 30 minutos a população chega”. Quando perguntado se já havia feito a travessia, sua resposta finaliza a viagem nos fazendo entender os bons efeitos que a beleza do subúrbio transmite: “Estou esperando minha esposa para fazermos juntos”.
(junho de 2007)

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Posted in: CIDADE