Um símbolo como fonte de renda

Posted on 09/06/2007 por

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Adriana Luciana

Ao chegar a Periperi depois de uma demorada viagem de trem, fui a procura de informação sobre baianas de acarajé, para mostrar algumas das principais do subúrbio. Parecia ser difícil de encontrar por causa do tempo, que estava nublado, então resolvi perguntar a uma vendedora de guarda-chuva se ela conhecia algum lugar que vendesse acarajé, e fui bem informada: “Tá vendo aquela barraquinha azul ali?, Vira que você vai encontrar o melhor acarajé daqui ”, afirmou Vânia Souza.

Chegando ao local apontado pela vendedora, não consegui avistar a baiana, então perguntei a uma senhora e ela me respondeu que era ela mesma: “Sou eu, quase que não me encontra, pois dia de hoje não costumo vender”, disse Valdenice Oliveira, enquanto montava a barraca. Dona Valdenice não usava a roupa de costume de uma baiana. O seu ponto de venda é em frente a um bar aonde está há exatamente três anos, na companhia de sua filha Ana Lúcia, de 21 anos.
Trabalhando até 5h por dia, dona Valdenice conversava comigo sobre o orgulho da profissão, quando de repente o cheiro da massa do acarajé que estava sendo batida por sua filha me dispersou um pouco e procurei de onde vinha aquele cheiro. “Esta profissão eu queria desde quando era criança e via as mulheres fazendo. Já fiz curso de cabeleireiro, de costura e nada deu certo, então me aperfeiçoei em acarajé e abará”, disse ela.

Segundo a baiana, o local de trabalho é agradável e quem lhe cedeu foi o próprio dono. “Eu gosto daqui, pois eu vendo e vou para casa que é perto. E também aqui vem muita gente de fora além dos clientes próprios”, disse Valdenice, me explicando ainda que não é preciso fazer registro na prefeitura. A vendedora admite ter dificuldades na compra dos mantimentos e conta que o tempo chuvoso interfere no lucro: “Compro os temperos em São Joaquim, mas já teve aumento e amanhã será proibida a venda dos camarões. Eu faço 20 abarás por dia e ontem não vendi muito bem por causa do tempo de chuva”.

Apesar de ter sido reconhecida como o melhor acarajé, fato desconhecido por ela, dona Valdenice caprichou no preço de R$ 1 e R$ 1,50 com camarão. A sua barraca leva uma única frase, “Deus é fiel”, pois ela é cristã. Logo me despedi e fui convidada a aparecer depois para saborear um dos quitutes.

O segundo ponto de acarajé ficava na Praça da Revolução e enquanto esperava a chegada da baiana conversei com dois amigos dela. A amiga de muitos anos Maria Valderez Cruz me informou que a baiana vende há mais de 20 anos: “Aqui é a raiz dela”, e que o local de venda no início era ruim. “Melhorou bastante, pois antigamente era muito escuro, com muitas árvores, e quando faltava luz tinha que usar candeeiro”, acrescenta a dona de casa Maria Valderez.
Um outro amigo também falou e não poupou elogios: “É o acarajé mais gostoso daqui, e antes era mais ainda, pois se fritava com o carvão ao invés do gás”, disse Joílson Santos. Dona Valderez me explicou que a sua amiga hoje tem 65 anos e não vende mais, ela faz o material e as duas filhas se revezam para vender.

Isto era realmente uma pena, pois queria ter o prazer de conversar com uma baiana atuante há tanto tempo na área, mas logo Elizângela chegou com um torço na cabeça e enquanto arrumava o tabuleiro me respondeu algo: “Minha mãe já trabalha há 28 anos e eu há 13. Eu vendo durante uma semana e minha irmã na outra”. Sobre o lucro, Elizângela foi básica: “É considerável”. Por estar vendendo na praça que é um patrimônio da prefeitura, a baiana deveria ser registrada: “Eu sou registrada na prefeitura e tenho de pagar uma taxa mensal de R$ 60”. Depois me retirei, pois a baiana estava atarefada com a arrumação da banca, ela trabalha 7h por dia e o preço é R$ 1 e R$ 1,50 com camarão.

Diferente
Ao chegar em outro ponto de acarajé, que fica em frente a Praça da Revolução, me deparei com uma surpresa pois, além de ser em uma varanda que já era um bar, quem fazia a acarajé era um homem. Ao abrir o portão, avistei uma mulher, então entrei e notei que ela estava mexendo camarões em uma panela, assim perguntei se ela era quem fazia acarajé: “Na verdade é o meu marido quem faz o acarajé e o abará”, respondeu Cristina Santana. Logo o seu marido apareceu para conversarmos: “Nós temos apenas dois meses vendendo”, afirmou Alcides Lustosa.

O preço do acarajé era de R$ 1 e R$ 1,50 com camarão. Ele vende 4h por dia e durante os finais de semana o local fica mais cheio segundo seu Alcides. Sobre o lucro, ele disse: “Tá relativo e tá dando para o sustento”. A verdade é que não pude esconder a minha surpresa ao ver um homem vendendo acarajé, pois não é algo tão comum de se ver, então perguntei como os fregueses reagem ao fato e o que o levou a exercer a profissão: “O que me levou foi a necessidade de emprego então tive que aprender. As pessoas estão elogiando e gostando muito”, concluiu Lustosa, um do moradores do Subúrbio que uniu o útil ao agradável para se sustentar e fazer o que gosta.
(junho de 2007)

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Posted in: ECONOMIA