Comunidade em busca da revitalização

Posted on 05/11/2007 por

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Monique Moura / Soteropolitanos 

por Monique Moura

Já imaginou um passeio em um lugar que guarda a marca de muitos acontecimentos históricos como o primeiro sermão do Padre José de Anchieta? Pisar em terras que um dia foram de índios, ou que tal o cenário de um dos maiores esconderijos de escravos fugidos da época colonial? Esses acontecimentos fazem parte da história de um patrimônio cultural e ambiental que é o Parque São Bartolomeu, situado no subúrbio ferroviário. Hoje, o parque encontra-se em situação não tão favorável, deixando a descrição paradisíaca meio comprometida. O abandono e a devastação marcam a nova era do parque São Bartolomeu, que é uma das últimas reservas de mata atlântica em local urbano no Brasil.

Segundo Michele dos Santos, de 22 anos, moradora de Plataforma, o local está em total abandono. “O parque está totalmente abandonado, antigamente tinha uma instituição que cuidava do parque, mas atualmente está tudo largado”, comenta. O parque já foi considerado um dos pontos turísticos mais visitados de Salvador. Hoje, a reserva natural corre riscos, na medida em que o crescimento desordenado da cidade leva à destruição gradativa das matas, pondo em risco o último manguezal de Salvador, que situa-se na reserva do Parque São Bartolomeu. “O parque era muito bonito, costumava vir desde pequeno, mas agora tá difícil, a área, além de estar suja, tá violenta também”, afirmou Luiz Esteves, morador antigo da região.

A área do parque foi alvo de projetos como o trabalho desenvolvido pelo Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu (CEASB) em parceria com a Universidade Federal da Bahia, que lançou o programa Memorial Pirajá e posteriormente um livro retratando as condições do parque São Bartolomeu. Nesse livro, publicado em 1998, a historiadora, especialista em educação e coordenadora do Programa Memorial Pirajá, Ana Lúcia Menezes Formigli, afirmou que o intuito desde os anos 90 era o de sensibilizar e mobilizar moradores locais para a melhoria da qualidade de vida. Além da Ufba, a Unicef, a Fundação Clemente Mariani e a prefeitura de Salvador, através da Secretaria Municipal de Educação, também estiveram envolvidos no projeto. Segundo a secretaria municipal da Reparação, foi liberado no final do ano passado em torno de R$ 6 milhões para o local. Sendo que R$ 4 milhões são para a revitalização da área e R$ 2 milhões para a manutenção dos terreiros de candomblé que existem por lá.

Monique Moura / Soteropolitanos

Quem se aventurar a dar um passeio no parque de São Bartolomeu, pode acabar encontrando Nazi Araújo, uma simpática senhora de 60 anos, moradora antiga da região e Fundadora da creche comunitária próxima ao parque. Ela afirma que é fundamental a realização de projetos em prol da preservação da área. “Várias instituições estão lutando, muita reunião com o pessoal da CONDER (Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia) e prefeitura, mas também tem que melhorar a segurança, que não tem nenhuma”. Nazi Araújo alertou para o cuidado em relação à visita no parque São Bartolomeu. “É preciso muito cuidado, não recomendo você entrar lá, se tiver necessidade realmente, pega um oficio para os policias acompanharem”, afirmou.

O depoimento de policiais que fazem o monitoramento do local não é diferente. “A área é violenta, quando os turistas chegam, eles pedem apoio. Até a primeira cachoeira não tem problema, mas depois da segunda é perigoso. Antes as pessoas arriscavam, hoje não. É necessário solicitar um ofício para o acompanhamento”, relata o Sargento França, que fica nas proximidades do parque e que acredita na revitalização do Parque São Bartolomeu. “O local tá abandonado realmente, mas espero que possam melhorar, porque o projeto até agora só está no papel”, complementou o policial Romílson.

Toda essa preocupação envolvendo o local não é à toa. O parque “guarda” uma verdadeira aula de história da Bahia. De acordo com José Augusto Laranjeiras, professor auxiliar da Universidade Federal da Bahia, foi na região, em pleno século XVI, que se constatou a primeira aldeia indígena, organizada pelos padres jesuítas que se estabeleceram no local também os primeiros engenhos de açúcar. Posteriormente foi local de grandes lutas contra a invasão holandesa. Além do fato de que no meio da mata existe a represa do Cobre, responsável pelo abastecimento de aproximadamente 200 mil pessoas em oito bairros que circundam o parque.

Santuário Sagrado
O parque tem um enorme valor significativo para os praticantes do candomblé. Foi nas matas da reserva que existiu o quilombo do Urubu, um dos mais importantes da Bahia. Deixando uma herança de devoção para com as divindades africanas. No livro “Memorial Pirajá”, o agbagigan e economista Everaldo Duarte afirma que o local é considerado mais que sagrado por causa da energia dos ancestrais. Oferendas são feitas através de ebós nas pedras e nas árvores consideradas sagradas a seus orixás. Representando para os devotos a expressão da natureza, dos deuses criadores. O parque de São Bartolomeu também é chamado de Oxumarê, senhor do arco Íris. Lá tem as cachoeiras de Oxum, Nanan, Oxumarê, a pedra de Omolú, as matas de Oxossi, as plantas de Ossain. Segundo Maria Silva, o parque São Bartolomeu tem valor religioso. Devota do candomblé, frisa a importância da área para quem é praticante e lamenta a extinção de alguns terreiros.

(setembro de 2007)

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