A rádio que é sucesso no Suburbio Ferroviário

Posted on 03/12/2007 por

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por Monique Moura

Sábado, 10h da manhã, o dia permanecia dublado e quente, ameaçando chover. Foi neste cenário que cheguei ao bairro de Plataforma, mais precisamente à Praça São Braz, a procura de Jorge Pimenta, diretor comercial, fundador da rádio comunitária de Plataforma e responsável pelas inúmeras caixas de som espalhadas por vários pontos estratégicos do bairro. Passando por diversos lugares, fui informada que a JP GOSPEL, como é chamada a rádio, ficava em São João do Cabrito. Após uma longa caminhada, encontrei finalmente Jorge dos Anjos Pimenta, 54 anos. Simpático, ele não escondeu o orgulho de ter fundado, há 10 anos atrás, a rádio comunitária de Plataforma.por Euro Azevêdo

“Houve realmente a necessidade de lançar uma rádio. As pessoas daqui antigamente saíam passando a informação de boca em boca, e com a rádio nós conseguimos passar a informação mais rápida, prestando serviço social. Ela é reconhecida, uma espécie de cartão postal”, afirmou. Animado e confiante, Seu Jorge complementa: “Hoje eu ando por aí e vejo as pessoas cantando e gostando das músicas. A nossa preocupação é dar uma boa música”.

Desde garoto, ele ouvia rádio. A paixão por música foi crescendo e Seu Jorge chegou a cantar em bandas, participou de projetos culturais e, depois de um certo período, migrou para publicidade. Foi então que com muita dedicação e responsabilidade envolveu-se no empreendimento de uma rádio comunitária. “Foi com muita luta, é muito complicado fazer um trabalho deste tipo, principalmente aqui em Plataforma”, comenta.

A abrangência da rádio chega a ser surpreendente. Várias caixas de som estão distribuídas em muitos locais de Plataforma e em bairros vizinhos como Itacaranha e Lobato. O que permite aos moradores escutarem o conteúdo de informações que a JP Gospel proporciona, dentre eles programas educativos, como saúde e meio ambiente. Além da divulgação de anúncios como: perdas de documentos e notas de falecimentos.

Em relação ao tipo de música que é tocada na rádio, Seu Jorge demonstra um certo rigor. Segundo ele, é preciso passar para a comunidade música de qualidade, diferente das músicas que apelam para a agressão à mulher, incentivando a violência, e as de duplo sentido. Na escolha das músicas, ele privilegia a música popular brasileira, tomando como referências músicos como: Oswaldo Montenegro, Milton Nascimento, Zé Ramalho, Caetano Veloso, dentre outros. “São cantores que fazem a boa música, com melodia. A gente quer dar o melhor pra nossa comunidade, então a rádio não aceita, por exemplo, o pagode. Não utiliza esse tipo de movimento musical”, alegou.

No momento que conversava com Seu Jorge, percebi que na sala ao lado estava acontecendo a gravação. Estava indo ao ar o programa “Espaço 10”, em que são tocadas as melhores músicas internacionais. Ao ser finalizado, tive a oportunidade de falar com o locutor Adilson Peixoto, 38 anos, dono de uma empresa e estudante de administração. Adilson contou um pouco sobre a programação da JP Gospel, que vai ao ar de segunda a sábado: “Aqui nós informamos as principais notícias, e a previsão do tempo. Temos uma programação semanal, onde a intenção e passar informação para as pessoas, levar para elas músicas de qualidade e divulgar também os patrocinadores, porque sem eles a rádio não acontece”.

Além de Adilson, que faz a locução, e de Seu Jorge, a equipe da rádio comunitária de Plataforma conta também com a filha de Seu Jorge, que colabora fazendo gravação e edição. “Tinha um grupo que trabalhava comigo, mas devido ao custo alto, a gente eliminou”, afirmou. Saindo da JP, acabei conversando com alguns moradores da região que elogiavam o trabalho de Seu Jorge. “É bom ter uma rádio aqui em Plataforma, gosto principalmente dos anúncios”, disse Augusto Alves, morador do bairro há mais de 45 anos.

Comunicação comunitária
Em sua cartilha de 25 anos, a Associação dos moradores de Plataforma (AMPLA) afirmou que são muito poucas as entidades do movimento popular que conseguiram ter algum jornal ou boletim que, no mínimo, divulgue suas ações e que há dificuldades técnicas e financeiras que levam a uma ausência quase total das camadas populares nos meios de comunicação de massa. Apesar destas dificuldades, sabe-se que existem algumas experiências positivas de rádios comunitárias, tanto na Bahia como em todo Brasil, e que sem dúvida é um instrumento importante para o fortalecimento de experiências comunitárias.

Muito se questiona a respeito da ligação da JP Gospel com a igreja. De acordo com Seu Jorge, esse vínculo foi possível na medida em que foi percebendo o valor da música Gospel. “Quero passar para as pessoas uma ótima música e a música Gospel, por exemplo, se encaixa nesse padrão. A música gospel hoje movimenta muito o mercado fonográfico”, afirmou. Mas para ele, independente da programação, o intuito é prestar o serviço social em prol da comunidade de Plataforma.

(outubro de 2007)

As rádios comunitárias do Subúrbio Ferroviário de Salvador tentam, apesar de todas as dificuldades com a obtenção de concessões governamentais, se manter e conquistar seu espaço. Segundo os grupos que administram esse tipo de rádio, a burocracia é grande e o interesse do governo, pequeno. Ainda mais quando se trata do Subúrbio. Rosa Andrade, que trabalha na rádio comunitária Estação, em Coutos, afirma que o apoio é quase nulo: “O governo não tem interesse nenhum para liberar e manter as rádios”.
(Euro Azevedo / junho de 2007)

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