Rádio Comunitária Maré FM

Posted on 23/03/2010 por

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Rádio Comunitária Maré FM: uma discussão sobre patrimônio imaterial

por Jeanne Sacramento *

Uma freqüência modulada (FM) que atinge no máximo 1 km a partir de uma antena transmissora, tendo uma baixa potência de 25 watts, sendo somente autorizada a explorar este serviço as associações e fundações comunitárias sem fins lucrativos com sede no local da prestação do serviço. O meu objetivo neste artigo é mostrar como um meio de comunicação voltado para a sociedade pode desenvolver relações sociais e assim construir ações biopolíticas, que podem transformar a realidade de uma comunidade. Uma informação para conhecimento de todos: em 1998 foi criada a lei 9.612 e regulamentada no mesmo ano pelo decreto 2.615, referindo-se ao Serviço de Radiodifusão Comunitária que deve ter uma programação pluralista, sendo aberta a expressão de todos os moradores da região, sem qualquer tipo de censura.

Você sabia que para uma rádio comunitária ir ao ar é necessário uma autorização do Ministério das Comunicações? E a avaliação é feita a partir da análise de um formulário que deve ser enviado por parte dos interessados? Pois é, e após aprovada a rádio deve seguir algumas regras, como a programação diária a ser veiculada devendo conter tudo aquilo que contribua para o desenvolvimento da comunidade sem discriminação de raça, religião, sexo, convicções político-partidárias e condições sociais. De forma, qualquer cidadão tem pleno direito de se manifestar sobre os assuntos abordados como também fazer reivindicações.

E mais: as propagandas transmitidas, diferente de qualquer outra rádio, devem ser sob a forma de apoio cultural, ou seja, o pagamento feito é para os custos relativos à programação ou a um programa específico, sendo permitida pela emissora que recebe o apoio, sem mencionar os produtos ou serviços. Além de ser proibido a uma rádio comunitária transmitir a programação de qualquer outra emissora se não houver determinação do Governo Federal e não poderá expressar qualquer defesa de doutrinas, ideias ou sistemas sectários.

 

Há oito anos a Associação Comunitária dos Amigos de São Tomé de Paripe, após passar por todos os processos necessários, criou a Maré FM (87,9), que é a primeira rádio comunitária do bairro, e acabou sendo referência da comunidade no auxílio aos moradores do subúrbio.

 

A Maré FM tem uma programação diversificada em caráter musical. Um bom exemplo é o programa “Tarde de Sucesso”, que leva ao ar diversos estilos musicais de artistas famosos e dos novos talentos. Muitas vezes são grupos criados por adolescentes da comunidade que apresentam músicas escritas por eles mesmos. Durante a veiculação do programa, a rádio também transmite aos ouvintes informações sobre a cidade, saúde, entre outros.

 

Existem programas destinados a um único estilo musical, outros com a participação do público ao vivo e através de recadinhos, que são transmitidos pelos locutores como Beto Araújo, Rubens Jr. e outros. Assim, percebemos que algumas regras já estão sendo cumpridas. Sem falar nos pequenos comerciantes do bairro, que contam com um grande apoio: a divulgação do seu ambiente de trabalho.

A rádio comunitária de Paripe exerce um papel fundamental para a melhoria do bairro, sendo um meio de transmissão das principais reivindicações dos moradores como, por exemplo, saneamento básico, falta de água e segurança que acabam chegando aos órgãos competentes e em alguns casos resolvendo o problema. Um exemplo foi o asfalto que a Rua da Bélgica recebeu. Os moradores também usam o espaço da rádio para divulgar eventos, cultos, além de achados e perdidos, transformando assim a Maré FM em uma porta voz da comunidade.

Como será que a rádio trata as doenças que assolam a cidade? Saiba que através de informações básicas como a prevenção, sinais, sintomas, causas das doenças como dengue, leptospirose, meningites e outras. Além de divulgar as ações sociais e entretenimentos que estão acontecendo na cidade e principalmente no bairro, pois é dado o maior apoio a todos os eventos que acontecem por lá. Um dos eventos onde a rádio fez grande diferença foi a 3° Parada Gay de Paripe, que aconteceu no dia 21/09/08. A divulgação através da rádio trouxe patrocínio, segurança da Polícia Militar e público.

A Maré FM, além de entreter a população, consegue fazer com que ela participe de eventos em benefício próprio, como o Natal Sem Fome, mutirões de limpeza dos córregos, valas, terrenos baldios e campanhas de saúde pública. E também no que diz respeito à educação, buscando incentivos culturais para os eventos que ocorrem no bairro, como concursos de bandas, aulas de dança, capoeira, karatê e informática, estando disponível à população no Colégio Estadual Barros Barreto, onde a rádio faz questão de divulgar qualquer apresentação prevista.

O maior incentivo para população é ver pessoas da própria comunidade e de outras se interessando para ensinar algumas atividades de forma voluntária. Mostrando assim que a participação de um pode melhorar a vida da comunidade, não por simplesmente estar ali como professor, mas por trazer conhecimento de sua área de atuação e, principalmente, de convivência social.

Foto: Ralph M. Giesbrecht // Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br/

Podemos avaliar melhorias acontecendo no bairro com a ajuda da rádio comunitária, mas o que fica e continua crescendo é a relação social que transforma um simples mutirão em algo simplesmente inexplicável no que diz respeito ao valor adquirido durante o trabalho. Este valor não é ver somente o objetivo material cumprido, mas, sim, ter a certeza da transmissão de conhecimentos. Ou seja, constrói bens materiais e principalmente leva à construção da própria vida social, onde a população passa a ter vez e voz ativa de forma que suas reivindicações não precisam ser somente ouvidas, mas passam a ser executadas com a força da própria comunidade.

 

Os moradores de Paripe, com o auxílio da Maré FM, vêm tendo uma produção biopolítica, pois são criadas novas formas de vida fazendo com que a sociedade saia do simples formato econômico e passe a ver a criação de ideias, conhecimentos e afetos criando assim uma nova força social. Ou seja, a rádio comunitária apresentou o trabalho imaterial à população e fez com que ele venha a ser executado, trazendo assim novos movimentos de reivindicações para a melhoria na qualidade de vida do bairro.

A avaliação que pode ser feita sobre a relação entra uma rádio comunitária e um bairro é bastante positiva, pois ambos ganham com um trabalho que é feito com a única intenção do crescimento social. A população tende a caracterizar a rádio como porta voz das suas reivindicações, mas o maior movimento neste sentido é causado pelos próprios moradores, a partir do momento em que eles criam relações sociais em busca de um propósito. Pois, para solicitar algo, é preciso no mínimo saber o que é, e com esta intenção se produz a informação e se transmite o conhecimento mostrando então a disseminação do trabalho imaterial que só pode ser realizado em comum.

Com pesquisas e entrevistas busquei todas as informações possíveis para entender melhor o trabalho de uma rádio comunitária que com toda certeza acabei me surpreendendo, pois não pensava ser algo tão importante para o crescimento social de uma comunidade. Todas as informações descritas acima mostram o lado positivo desta relação, pois não encontrei nada de negativo e sim um ponto que precisa ser melhorado para um melhor resultado. Trata-se da divulgação da rádio que, de certa forma não existe, a não ser através da própria programação, que pode ser ouvida em alto-falantes distribuídos em algumas ruas do bairro, o que prejudica a relação entre os morados e a rádio.

Mesmo com tantos projetos executados e bem sucedidos, geralmente as pessoas que moram distante da Maré FM não sabem qual a freqüência e, conseqüentemente, não solicitam a ajuda dela, pois Paripe é um bairro grande onde existem dois finais de linha e os alto-falantes ficam localizados na rua principal. Sem falar que não existe endereço eletrônico da rádio o que seria de certa forma um facilitador da comunicação com a rádio e da divulgação das ações feitas por ela.

Podemos ver que o importante não é ter simplesmente uma rádio no seu bairro, mas sim ter por parte dela ações que tragam mudanças significativas para a comunidade. Onde as principais mudanças feitas não são nas ruas e sim em cada morador que percebe a sua participação nas mudanças físicas do bairro através das relações sociais.

(maio de 2009)

 

Em 2010 a rádio Maré FM criou um site:
http://www.marefm.com.br/
Tel: (71) 3408-5024

* Jeanne Sacramento é estudante de Comunicação Social com habilitação em Propaganda e Marketing na Faculdade 2 de Julho, em Salvador,  mora em Paripe e colabora com a Soteropolitanos.

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